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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Portugal congela novos projectos PRE

Como era de alguma forma esperado e seguindo as pisadas do governo espanhol o executivo português decidiu congelar novos projectos de produção eléctrica em regime especial que é o mesmo que dizer fontes renováveis (fica de fora a hídrica) e cogeração. Pressionado pela troika e num ambiente de contracção da enconomia nacional não havia muita escapatória. Já em Outubro tinha escrito aqui que o Plano Energético para 2020 tinha objectivos inconciliáveis e que mais tarde ou mais cedo algum teria de cair. Felizmente o bom senso prevaleceu e o sector pode começar a ser analisado com mais racionalidade daqui em diante.

Espero que agora os objectivos do país nesta matéria passem, como defendo neste blog, pelo fim da aposta no carvão e que se substitua carvão e excesso de renováveis por nuclear e gás natural. Se Portugal fizer isso estará na vanguarda mundial da criação de um mix energético competitivo e sustentável. Ou então podemos esperar que os nossos vizinhos, alemães ingleses e o resto da Europa nos mostrem o caminho. Não tenhamos dúvidas, tal como a IAE (International Energy Agency) tem vindo a prever nos seus relatórios o carvão, o gás natural e o nuclear continuarão a ser os pilares da produção eléctrica nas décadas vindouras. Apagar o carvão do mix seria um excepcional exemplo de modernidade e protecção ambiental que a Europa podia dar ao mundo, principalmente ao mundo emergente.

Agora coloca-se a questão, para que servirá a fábrica de turbinas eólica que a China Three Gorges prometeu como contrapartida na privatização da EDP. E pode-se perguntar também que interesse estratégico pode haver na entrega do controlo da principal eléctrica portuguesa a uma empresa que aposta maioritariamente (pelo menos por enquanto) em fontes renováveis quando o país acaba de virar as costas a essas fontes. Mas sobre a venda da EDP aos chineses escreverei noutro post.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Portugal não suporta um reactor nuclear? (2ª parte)

Depois de ter analisado os cenários de um mix de produção de energia eléctrica em Portugal em 2025 com três e duas centrais nucleares de 1.600 MW parece-me interessante conceber mais dois cenários, 1 reactor nuclear e 0 reactores e máximo de eólica. Antes de continuar parece-me útil esclarecer alguns pontos:
  1. Graças à generosidade da remuneração, a co-geração que era suposto servir apenas para aproveitar calor gerado noutras actividades, tornou-se uma oportunidade de negócio para empresas que nem têm a geração eléctrica como core business. Assim a co-geração está sobredimensionada em Portugal, como denunciaram recentemente Delgado Domingos e Mira Amaral, e podia ser reduzida, o que facilitaria a integração de produção nuclear nos vários cenários.
  2. Como não consigo saber qual o valor justo mantenho a produção dos últimos 12 meses.A eficiência da bombagem é, como até reconhece o PNBEPH, inferior aos 75% que tenho considerado. Admitindo 70% de eficiência o país, em 2025, terá capacidade de consumir 6.570 GWh/ano em bombagem, ou 2250 MW médios.
  3. Para facilitar as contas tenho deixado de fora outras formas de produção eléctrica (solar, biomassa, RSU, mini-hídrica, etc). Não só porque geram quantidades pequenas de energia e por isso facilmente consumidas, mas também porque algumas (solar, mini-hídricas, microprodução) deviam perder os subsídios elevados que recebem e por isso o mais provável seria estarem extintas em 2025.
  4. Na 1ª parte admiti que em 2025 não existe produção eléctrica com carvão e através de turbinas eólicas. Em 2025 o nosso parque produtor a carvão já estará velho a que se soma as penalizações ambientais, que espero, tornem economicamente obsoleta esta forma de produzir energia eléctrica. Se Portugal diminuir (ou acabar) com as tarifas feed-in para a eólica a adição de parques vai acabar. Como a longevidade de um parque é de cerca de 15/20 anos em 2025 já sobrará pouca potência eólica instalada.
  5. Não acredito que em 2025 o consumo nacional seja igual ao de 2010. Não só porque me parece que obter 25% de eficiência energética como o governo pretende para 2020 é optimista como espero que a economia do país se desenvolva e cresça entre 2015 e 2025. Adiciono mais 5.000 GWh para bombagem o que dá um total de 57.200 GWh. Refiz as contas dos cenários 1 e 2.
  6. O consumo mínimo de 4.500MW admitido exclui bombagem.
As condições enunciadas na 1ª parte mantêm-se.

Cenário 3 (1 reactor nuclear - 1.600 MW)
Somando os 1.600 MW aos 734 MW da co-geração a produção de base fica aquém do consumo. A bombagem não é necessária. 21% das necessidades de abastecimento do país (57.200 GWh/ano) são satisfeitas com nuclear. A co-geração vale 11%.  O potencial hidroeléctrico líquido (13.300 GWh/ano) cobre mais 23%. A maior fatia, 45% (25.553 GWh) poderá vir das centrais de ciclo combinado que funcionarão com uma produtividade bastante maior ou numa combinação gás natural/eólica/bombagem acreditando que a produção eólica é economicamente competitiva nessa altura e que a bombagem servirá para aproveitar importação barata da Europa.

Tendo em conta o tempo que leva a construir uma central nuclear e a situação política em Portugal, até este cenário em 2025 me parece mais um acto de fé do que uma forte probabilidade de ser concretizada, ainda que mais provável do que os cenários 1 ou 2.

Cenário 4 (sem produção nuclear, máxima prioridade à co-geração seguida da eólica; não recorrer à exportação por excesso de eólica)
A capacidade máxima de escoamento em vazio é de 6.750 MW (4.500 + 2.250). Descontando os 734 MW da co-geração isso permite o país esticar até um máximo teórico de 6.016 MW de potência eólica instalada sem obrigar à exportação. Este valor é inferior aos 6.800 MW constantes no PNAER português. Com uma produtividade de 25%, o parque eólico forneceria 23% (13.175 GWh) das necessidades do país, praticamente o valor que analisei aqui. A co-geração mais 11% e as barragens mais 31% (23% líquidos e 8% em resultado da bombagem). O gás natural teria de contribuir com os restantes 34%, o que faria da produção termoeléctrica a base do diagrama de cargas.

Conclusão
Tendo em conta os pressupostos que considerei para a construção destes quatro cenários o 4 (eólico) só permite importar menos gás natural (ou usar menos algarvio) do que com a instalação de uma central nuclear. Três centrais nucleares em 2025 iria sobredimensionar e encarecer o parque por obrigar a manutenção de CMECs. A existência de duas centrais nucleares seria o cenário mais racional, que garantia maior independência energética e o preço da electricidade mais baixo.

Se se mantiverem as actuais tarifas feed-in para as renováveis o cenário 4 é aquele que produzirá o preço mais elevado de electricidade, provavelmente o mais alto do mundo em 2025, dado que esse custo é ainda ampliado por se recorrer enormemente à bombagem com uma eficiência baixa. As consequências no preço de se associar eólica subsidiada e bombagem abordei aqui e Pinto de Sá detalhou melhor aqui.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Portugal não suporta um reactor nuclear? (1ª parte)

Construção de Olkiluoto 3 (Finlândia) - 1.600MW
A deambular pela net caiu-me esta apresentação powerpoint no colo. O documento de 31 slides é da autoria de Delgado Domingos, Prof. Cat. do IST, e serviu para uma exposição numa Conferência sobre Energia Nuclear promovida pelo Diário Económico em Abril de 2009. O Prof. Delgado Domingos tem denunciado as mentiras do aquecimento global antropogénico e ainda há pouco tempo criticou, com toda a razão, a calamidade a que se chegou em Portugal com uma co-geração principescamente remunerada. O Prof. Delgado Domingos é uma referência nacional em conhecimento sobre energia pelo que esta sua apresentação me parece, apesar de ter apenas frases-chave, merecedora de contra-argumentação. É uma demonstração cabal da resiliência da opção nuclear quando alguém com os recursos do Prof. Delgado Domingos tenta disputar esta verdadeira uphill battle contra a energia atómica. Nesta apresentação o Prof. Delgado Domingos pretende convencer que Portugal não tem consumo eléctrico que comporte um reactor nuclear de 1.600 MW.

1.600 MW corresponde aos mais potentes reactores nucleares que existem e Portugal podia optar por instalar um reactor mais comedido. Mas como na geração eléctrica a escala anda de mãos dadas com a eficiência defendo que o país devia fazer-se equipar com os maiores. Vou fazer as contas para três e dois reactores de 1.600 MW.

Condições para a construção de cenários 2025:
  1. Considero que apenas a co-geração deve ter a primazia de acesso à rede por ser uma medida de eficiência energética e por ter de estar condicionada ao funcionamento das indústrias que a produzem. Todas as outras fontes de energia eléctrica em regime especial podem limitar a sua produção às horas de maior procura ou não têm razões que se sobreponham à hierarquia do preço. Admitindo produção constante, nos últimos 12 meses a co-geração valeu 6433 GWh (4.636 GWh fóssil + 1.797 renovável GWh) o que dá uma potência média de 734 MW.
  2. Em 2020 o país vai ter uma capacidade de bombagem em barragens de 6.570 GWh (70% de eficiência). Se se admitir que a bombagem se vai efectuar nas oito horas de menos consumo a capacidade média de consumo nessas horas é de 2.250 MW.
  3. Consumo mínimo em vazio de 4.500 MW + 2250 MW da bombagem.
  4. Consumo anual estabilizado nos 52.200 GWh (valor 2010) + 5.000 GWh da bombagem.
  5. Centrais termoeléctricas a carvão e parques eólicos atingiram fim de vida.
Cenário 1 - (3 reactores nucleares - 4.800MW)
Aos 4.800 MW nucleares adicionam-se os 529 MW prioritários da co-geração pelo que existe um excendente de (4800+734-4500) = -1034 MW, cerca de 40% da capacidade de bombagem das barragens. É um cenário perfeitamente realizável que não obriga a exportação a preço de saldo.
Num cenário de 3 reactores, 62% das necessidades de abastecimento do país (57.200 GWh/ano) ficariam satisfeitas com nuclear. A co-geração valeria 11% e a bombagem fornecia 4% (2.113 GWh) o que significa que as barragens sem bombagem conseguiriam quase satisfazer os 23% que sobram. O restante parque produtor seria praticamente redundante. Na prática isso não seria viável economicamente

Cenário 2 - (2 reactores nucleares - 3.200 MW)
Com 3.200 MW de geração nuclear mais 734 MW vindos da co-geração fica-se com um défice de (3.200+734-4.500) =  -566 MW que tinha de ser coberto com produção térmica, hídrica ou importação. A bombagem só seria necessária para consumir energia eólica excedentária ou energia importada em vazio.

Neste cenário 42% do consumo seria abastecido com nuclear, mais 11% de co-geração. Dos restantes 47%, 23% podiam vir das barragens (13.300 GWh/ano) e os restantes 24% das centrais de ciclo combinado. As necessidades estavam satisfeitas sem outras fontes. É um cenário viável técnica e economicamente.

Torres de arrefecimento
Portugal tem consumo para ter no seu parque produtor dois ou três reactores nucleares de 1.600 MW. Tendo em conta o parque existente em 2025 só no cenário 2 seria, eventualmente, necessária produção renovável em regime especial para complementar.

Ao contrário de um cenário de energia eólica de base de que não existe nenhum exemplo no planeta, a França (75% de nuclear), Suécia (40%), República Checa (30% agora e 60% em 2030) ou Finlândia (30% agora e 40% em 2025) são exemplos de que é possível ter uma forte componente nuclear na produção eléctrica num país.

O Prof. Delgado Domingos continua a esgrimir argumentos anti-nuclear sem nenhuma consistência:
Em cada 18 meses, o reactor tem de parar cerca de 30 dias, para reabastecimento em combustível e manutenção. Substituir a falta de 1600 MW de modo planeado ou forçado não é economicamente viável seja devido às interligações à rede espanhola /europeia seja à sobrecapacidade que exigiria à produção nacional.
É talvez o maior obstáculo técnico à presença de reactores nucleares em Portugal. Na minha opinião o surgimento de energia nuclear em Portugal deve ser concertada com a renovação e alargamento do parque nuclear espanhol. Que vai acontecer, mais tarde ou mais cedo, quando os espanhóis descerem à Terra e a um défice tarifário de €25.000M.

Espanha tem dimensão para ter 16 reactores de 1.600 MW. Com os nossos 3 daria um total de 19 na Península Ibérica. Mesmo com a paragem de um todos os meses existiria fornecimento ininterrupto, salvo avarias, de 18 reactores.

As interligações necessárias para uma produção com fontes renováveis equivalente a 18 reactores de 1.600MW exigiria muito mais investimento na rede.
O nuclear, devido à rigidez na produção (devida a factores tecnológicos estruturais) tem de ocupar a base do diagrama de cargas retirando espaço às energias renováveis mais competitivas e à cogeração.
Mesmo com três reactores nucleares em funcionamento no país mostrei acima que existe espaço para a co-geração e para um parque eólico de dimensão razoável. A restante produção renovável, por ser controlável, pode ser reservada para os períodos de maior procura de consumo.
Com o desmantelamento da metalomecânica pesada, Portugal perdeu o know-how e a capacidade de participação significativa em qualquer programa de construção duma central nuclear
Não existe em Portugal know-how e capacidade de participação significativa na construção de nenhuma forma de produção de energia eléctrica. À semelhança do que acontece nas barragens as empresas portuguesas podem participar na construção civil de uma central nuclear. Na parte técnica algumas empresas podem dar o seu contributo como vai fazer a EFACEC nas novas centrais norte-americanas.


Um grupo nuclear de 1600 MWe liberta no ambiente mais de 3200 MW sob a forma de calor, cerca do dobro de uma central a gás de
ciclo combinado e muito mais do que uma central a carvão. Nenhum dos rios suportaria com segurança o arrefecimento directo. Uma torre de refrigeração evapora o equivalente ao consumo de água de
Lisboa
Os principais centros de consumo de electricidade em Portugal estão no litoral. As centrais podem ser construídas na costa e arrefecidas com água do mar.


Encontrar argumentos consistentes contra a energia nuclear afigura-se difícil. Apesar de ter os seus inconvenientes é a forma mais sustentável de obter energia eléctrica controlável, barata e abundante.

Na segunda parte desta reflexão equaciono os cenários de 1 e de 0 reactores.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PS quer menos subsídios para a cogeração

Central de cogeração da Portucel
O 18º Congresso do PS em Braga foi morno em debate político mas dele saiu uma importante proposta socialista para o sector eléctrico, a redução da subsidiação à produção eléctrica em cogeração. O objectivo da medida, que será formalizada nos próximos dias, tem o objectivo de ser alternativa ao aumento do IVA sobre a electricidade. Não se trata do fim da subsidiação da produção eléctrica como o título da notícia sugere. E não se trata por duas razões. Primeira, a Produção em Regime Especial (PRE) não se limita a subsidiar apenas a produção eléctrica proveniente de centrais de cogeração. Segunda, a redução proposta pelo PS não pretende acabar totalmente com os subsídios.

Preço electricidade PRE vs geral (ERSE)
Nem deve. A produção eléctrica em centrais de cogeração visa aproveitar o potencial eléctrico do calor do vapor que é necessário gerar para outras actividades e que se não for aproveitado é energia que se perde. O aproveitamento eléctrico na cogeração é por isso uma medida de eficiência energética. A forma como a cogeração devia ter surgido em Portugal era através de financiamento para a construção de instalações e não na venda de electricidade, mas o processo nasceu torto. Contudo, a produção energética a partir da cogeração deve continuar a ser remunerada tendo em conta a viabilidade do processo para os produtores e a adequação do incentivo ao preço da electricidade no mercado. Acontece que o valor que os produtores de cogeração receberam em 2010 (€104/MWh) é mais do dobro do preço médio da electricidade em 2010 (€46/MWh) de acordo com os últimos dados da ERSE relativamente a produção PRE, o que demonstra o desfasamento insustentável e passível de ser revisto.

Subsídios PRE (ERSE)
 O PS pretende poupar pelo menos €130 milhões por ano com a redução do subsídio. Voltando a pegar nos dados da ERSE de Julho de 2011 a cogeração produziu, nos últimos 12 meses, 4.636 GWh. Isso significa que o PS antevê reduzir em €28/MWh a atribuição de subsídio. Ainda assim os produtores de electricidade em cogeração receberiam cerca de €85/MWh face aos €113 previstos pela ERSE para este ano.

Sobre este assunto António José Seguro, o actual Secretário-Geral do partido Socialista referiu:
Nos próximos dias entregaremos no Parlamento uma proposta que prevê um regime mais justo e fiscalizado dos subsídios à produção de eletricidade através de co-geração. Bastariam duas alterações para que os consumidores poupassem por ano, no mínimo, 130 milhões de euros. Deixariam de ser subsidiadas duas das maiores empresas portuguesas, mas ganhariam todos os consumidores. 
E quem são estas duas grandes empresas? É a Galp que necessita de vapor para refinar o crude nas suas refinarias e a Portucel que também recorre a vapor para a produção de papel. Para estas empresas a produção eléctrica não é core business pelo que o subsídio deve ser calculado para cobrir apenas os custos da instalação e manutenção das centrais de cogeração.


Produção PRE (ERSE)
É de louvar esta iniciativa do PS. Não concordo é que seja implementada como alternativa ao aumento do IVA sobre a electricidade. Deve ser tida como uma medida de racionalidade por si própria, não como forma de anular a subida do IVA. E é pena que fique por aqui e não contemple outras fontes de electricidade PRE subsidiadas excessivamente. Basta referir, por exemplo, que se a produção eólica dos últimos doze meses fosse remunerada pelo valor estipulado actualmente (€75/MWh) e não o valor previsto pela ERSE para 2011 (€95/MWh) a poupança seria ainda superior à da cogeração. Tendo em conta que nos últimos meses a produção eólica atingiu os 9.160 GWh, com uma redução de €20 no subsídio, conseguir-se-ia economizar €183 milhões.

Essa é, aliás, a pretensão do actual Ministro Álvaro Santos Pereira que, sem a visibilidade e o mediatismo de António Seguro tem, pelo menos segundo a imprensa, desenvolvido conversações com os produtores nesse sentido.