segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Autocarros eléctricos no Grande Porto

Trolley Bus na Suiça
A página da Mobi.e é fértil a criar um enredo caricato para as notícias que publica. Há três semanas comentei esta e hoje abordo esta notícia do Jornal de Notícias sobre a sugestão de Luís Filipe Menezes relativamente a transporte eléctrico na região do Grande Porto. O autarca sugeriu que se voltasse a usar autocarros eléctricos em corredores especiais com catenária e pantógrafo para consumo eléctrico imediato, ou seja, trolley bus. A sugestão faz todo o sentido dado que a criação de uma rede de trolley bus é menos dispendiosa do que o metro de superfície. A ideia nem é inteiramente original dado que o Porto teve grande tradição na utilização de trolley bus até 2000.

Como afirmei neste post os trolley bus são uma solução eficaz e importante para electrificar a mobilidade urbana e reduzir a importação de petróleo. A página da Mobi.e relata aqui a declaração de Filipe Menezes mas não deixa de referir no texto que está prestes a arrancar a "experiência piloto com o autocarro eléctrico, produzido pelo consórcio constituído pela Salvador Caetano, a Efacec e o INEGI".

Caetano bus 100% eléctrico
O autocarro eléctrico da Salvador Caetano não é um trolley bus mas um autocarro eléctrico com baterias chinesas que a própia empresa nortenha afirma vir a custar €500.000 cada unidade. Acreditando na autonomia esperada de 100km e sabendo que um autocarro urbano faz médias de 10 km/h fica claro que cada unidade não vai operar mais de 10 horas por dia. Isso faz com que uma frota de autocarros eléctricos tenha de ser forçosamente maior do que a equivalente a diesel ou gás natural para garantir o mesmo serviço. Dado que as empresas portuguesas de transporte urbano de passageiros estão falidas não restam grandes dúvidas que a criação de uma frota de autocarros eléctricos Caetano Bus teria de ser subsidiada com dinheiros públicos. E todos os sete anos que é o tempo médio de vida das baterias de lítio que este autocarro vai usar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Pequenas notas sobre combustível nuclear

A confusão e demagogia que existe entre energia nuclear civil e armas nucleares militares é tão grande que me parece ser interessante fazer um resumo dos combustíveis usados nas centrais nucleares. O Urânio (símbolo U) aparece na natureza com uma proporção de 99,3% de isótopo U-238 e 0,7% de isótopo U-235. Porém, só o isótopo U-235 é cindível e como tal o urânio natural não tem a configuração para gerar energia eléctrica. Para isso o urânio necessita ser enriquecido.
 
Low Enriched Uranium (LEU)
É o combustível usado na maioria das centrais nucleares e é constituído por cerca de 96% de isótopo U-238 e 4% de U-235 depois de enriquecido moderadamente daí o seu nome Low Enriched Uranium (LEU). A reacção em cadeia de fissão nuclear que se dá num reactor nuclear consome apenas 5% do combustível introduzido até o fazer regressar a um estado de empobrecimento, ou Depleted Uranium (DU). Estes 95% de urânio empobrecido sobrante, apelidado normalmente de lixo nuclear, é 95% U-238, 1% U-235, 1% plutónio e 3% de outros produtos da fissão. Apesar de quase todo o combustível introduzido nas actuais centrais nucleares não ser consumido os resíduos resultantes são muito menores do que numa central termoelétrica a carvão graças à densidade energética do urânio para fissão. Quase todo o resíduo nuclear criado no planeta está armazenado e servirá de combustível aos reactores de quarta geração.

A concentração do urânio fissível U-235 no típico LEU não é suficiente para provocar uma reacção tão rápida que provoque uma explosão. Por isso não é possível um reactor provocar uma explosão nuclear. Nem é concebível que um bando de terroristas possa criar uma bomba nuclear roubando material de uma central nuclear. As bombas nucleares precisam de concentrações de isótopos fissíveis plutónio 239, urânio 233 ou 235 muito mais elevadas na ordem dos 80 a 90%.

Mixed Oxide Fuel (MOX)
Este combustível resulta do reprocessamento e mistura de diferentes óxidos ou isótopos fissíveis para criar combustível nuclear, daí o seu nome Mixed Oxide Fuel ou MOX. Tipicamente o MOX mistura Plutónio (símbolo Pu) com urânio natural ou urânio empobrecido reutilizado numa proporção de 7% de plutónio e 93% de urânio, ou seja, sensivelmente a mesma proporção fissível/não fissível do LEU. O MOX tem a vantagem adicional de reconverter plutónio de armamento nuclear desactivado que de outra forma teria de ser armazenado. Apesar de o MOX ter um comportamento semelhante ao LEU a maior parte das centrais nucleares existentes não foram projectadas para usar MOX pelo que industrialmente não se ultrapassa a proporção de 1/3 de MOX para 2/3 de LEU nos reactores. Para se aumentar essa percentagem as centrais têm de sofrer uma revisão técnica profunda. O MOX "queimado" também não é reciclado. Contudo, O MOX é usado um pouco por todo o mundo e cada vez mais. O combustível do reactor 3 de Fukushima Daiichi era LEU/MOX. Actualmente quase todo o MOX é produzido em França e Inglaterra. Graças ao MOX, em França, 17% do combustível nuclear usado é reciclado.

Tório (símbolo Th)
A Índia, China e Rússia pesquisam a industrialização de Tório como combustível para reactores nucleares. O uso alternativo de tório para obter energia eléctrica tem aspectos técnicos que o tornam interessante em relação ao urânio. Mas acima de tudo comercialmente tem a grande vantagem de ser três a quatro vezes mais abundante na crosta terrestre o que o torna praticamente inesgotável.

Conclusão
Devido à elevada libertação energética da reacção de cisão do urânio num reactor nuclear a quantidade usada de material é bastante mais baixa do que queima de combustíveis fósseis. Contudo, apenas 5% desse material é consumido e o restante armazenado ou reciclado como MOX que tem ainda a vantagem de dar uso ao material proveniente de armamento nuclear. As reservas mundiais de urânio não vão acabar tão cedo e durarão muito mais a partir do momento em que parte das centrais nucleares no mundo passarem a usar tório em vez de urânio. E lixo nuclear de ontem é o combustível das centrais nucleares de amanhã que serão menos exigentes em relação ao enriquecimento do combustível que usam. A reciclagem dos resíduos e o aproveitamento de novo urânio será muito mais elevado o que tornará a energia nuclear sustentável na sua fonte de energia primária, ou dito de outra forma, fará da energia nuclear uma forma de produção eléctrica inesgotável.

Aqui fica uma condensada animação interactiva do ciclo do combustível nuclear feito pelo Nuclear Energy Institute (NEI):
Interactive Graphic: How Nuclear Fuel is Produced, Used and Stored

Em 5 minutos fica-se a saber como é que se processa o ciclo desde a mineração até à armazenamento.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Microgeração é anti-social

Microgeração solar fotovoltaica
Em virtude da escalada do preço da electricidade o anterior governo decidiu criar uma tarifa social de electricidade para aliviar a factura eléctrica de 750 mil famílias portuguesas. Uma medida simbólica que não permite poupar mais do que algumas dezenas de cêntimos por mês na factura mensal de luz. Claro que a factura é tão elevada porque nela está reflectida o devaneio das energias renováveis da última década, os famosos Custos de Interesse Económico Geral (CIEG).

Parte deste CIEG advém dos extraordinários subsídios à microgeração fotovoltaica. Estes incentivos duram 15 anos e estão estabelecidos em €470/MWh para instalações com potência inferior a 5 kW e €355/MWh para equipamentos entre 5 kW e 150 kW, ou seja, cerca de dez vezes o preço médio da electricidade no Mercado Ibérico de Electricidade (MIBEL). E quem beneficia destes incentivos? É o casal de desempregados que vive num T2 R/C em Queluz? Ou são a classe média e alta que vive em vivendas nas periferias das cidades? Se o estado quer, de facto, ajudar os mais carenciados deve acabar com o incentivo à microgeração. Esta nunca produzirá electricidade que dê direito a uma fatia visível no diagrama queijo de produção nem ajudará a aumentar a propalada independência energética. A coexistência de tarifa social de electricidade e subsídios à microgeração é uma hipocrisia que não invalida que haja transferência de dinheiro dos mais pobres para os menos necessitados.

Se os beneficiários de microgeração estão verdadeiramente importados com a sustentabilidade ambiental e a independência energética do país devem vender a vivenda e vir viver para um apartamento (mais eficiente energeticamente) na cidade. Ao mesmo tempo poupam em consumo de combustível ao reduzir o commuting. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Catenária wirelless para auto-estradas

Um grupo de investigadores japoneses está a levar a cabo experiências no sentido de permitir estender a autonomia dos carros puramente eléctricos. E estão a explorar essa ideia criando um sistema wireless de transferência de energia eléctrica entre uma chapa metálica colocada na faixa de rodagem e uma cinta metálica inserida nos pneus do automóvel eléctrico. É o princípio do sistema de catenária e pantógrafo usada no transporte ferroviário mas numa versão mais económica e rápida de instalar.

Não sei se esta solução em concreto terá viabilidade para industrialização mas como defendi aqui é a forma de, realisticamente, promover o uso de automóveis eléctricos fora dos centros urbanos. A instalação de postos Mobi.E em auto-estrada (AE) não faz sentido e será um desperdício de dinheiro garantido. Mais vale gastá-lo a apoiar a investigação de soluções semelhantes a esta japonesa.

Esta solução será particularmente interessante para o transporte rodoviário pesado de mercadorias. O uso de camiões híbridos capazes de consumir electricidade em AE nas ligações internacionais faria baixar o seu impacto ambiental para o nível do comboio. E a vantagem dos camiões sobre o comboio, que é a capacidade de chegar a todo o lado, continuava assegurada pelo motor de combustão nesta solução híbrida.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Japão recupera reactor nuclear

Central nuclear de Tomari (3 reactores)
Foi dada autorização para a ligação à rede do reactor 3 da central nuclear de Tomari na Ilha de Hokkaido a norte do Japão. Fabricado pela Mitsubishi é um dos mais recentes do país tendo entrado ao serviço em Dezembro de 2009. Este é o primeiro dos 35 reactores que têm estado desactivados a realizar stress tests impostos às centrais nucleares japonesas depois do acidente de Fukushima Daiichi. Relembre-se que o Japão tem passado sem 35 dos seus 54 reactores nucleares desde o tsunami de 11 de Março. Apesar da contestação em todo país o governador de Hokkaido deu o aval ao rearranque do reactor. O isolamento da rede de uma parte significativa dos reactores nipónicos tem obrigado o Japão a viver uma situação penosa de falta de fornecimento de energia eléctrica. A supressão da energia eléctrica garantida pelos reactores nucleares, se mantida durante muito tempo,atira o país para uma situação de recessão preocupante.

Península Ibérica case study em consumo eólico

Mix produtivo Espanha continental (REE)
A Dinamarca é considerada um case study mundial de produção de energia eólica depois de nos anos 80 o país ter decidido apostar fortemente nesta fonte de energia eléctrica. Tem, inclusivé, na Vestas um dos maiores produtores de turbinas do mundo. A Dinamarca é a referência mundial na produção mas não tanto no consumo. Como desenvolvi neste post a eólica pode valer 20% do mix produtivo dinamarquês mas não vale 1/5 do consumo. Como a electricidade é um bem que não pode ser embalado e rotulado é sempre discutível e dificilmente aferível a fonte de cada kWh consumido. No entanto, é possível afirmar, com bastante segurança, que no consumo dinamarquês de electricidade a energia eólica não vale mais do que 15%. Isso faz, automaticamente, da Península Ibérica a região do mundo com maior consumo relativo de energia eólica. Isso acontece, quer pela aposta que os dois países ibéricos também fizeram na energia eólica, mas também pelos recursos hídricos da península, os quais nos permitem distanciar da Dinamarca na capacidade reter produção eólica dentro de fronteiras.

Mix produtivo Portugal continental (REN)
A Dinamarca tem das melhores condições de vento do mundo para produção eólica mas más características para gerir o seu consumo. Como as centrais termoeléctricas do país produzem simultaneamente vapor para aquecimento não podem reduzir a produção eléctrica tanto quanto seria desejável. A somar a isso, o país não tem recursos hídricos para armazenar produção eólica excedentária. Ao invés, a Península Ibérica tem ventos medianos para a produção mas as suas centrais termoeléctricas não têm a condicionante da cogeração de calor e a região dispõe de barragens para equipar com bombagem e assim armazenar energia eólica a mais.

Rede eléctrica espanhola (REE)
O caso ibérico é particularmente interessante de se analisar pois é, neste momento, o exemplo de maior escala que existe em consumo eólico no planeta. Para além disso, tecnicamente a Península Ibérica é praticamente uma ilha eléctrica com muito poucas ligações ao exterior. Portugal pode trocar electricidade com Espanha e Espanha tem ainda linhas de troca com França, Marrocos e Andorra. A análise do que se passa na Península Ibérica a este respeito permite avaliar a aplicabilidade de estudos que várias entidades têm lançado sobre a possibilidade de integração no futuro de 50% e mais de energias renováveis no mix energético europeu ou mundial.

Antes de continuar vale a pena reflectir porque é que a Península Ibérica se tornou líder global no consumo relativo de energia eólica. Uma das razões é a característica favorável do seu restante mix produtivo (peso significativo de flexíveis centrais a gás natural e recursos hidroeléctricos). A outra é o facto de o resto do mundo não ter embarcado na utopia eólica e ter sido bastante mais contido a aprovar parques eólicos. Ou seja, não nos devemos congratular com o feito, antes preocupar por não termos visto o que era óbvio para quase todos os países do mundo. Espanha ainda se pode defender com a Gamesa e uma indústria eólica que mitiga parcialmente a destruição de riqueza trazida pelo sourvedouro de subsídios que é a energia eólica. Portugal nem isso. Agora que a troika mandou colocar um travão na irracionalidade eólica os portugueses vão começar a pagar uma das mais caras energias eléctricas da Europa e do mundo. E a perceber até que ponto as renováveis foram ruinosas para o país.

Saldo exportador espanhol (REE)
Em 2010, ano de elevada produção hidroeléctrica como reconhece a REN no seu resumo anual, a península consumiu 329.977 GWh (dados REN e REE) de energia eléctrica. Desse consumo a Espanha coube 84% (275.773 GWh) e a Portugal 16% (52.204 GWh). Portugal consome pouco mais do que a Catalunha. A produção foi ligeiramente superior. 2,2% foi consumida na geração eléctrica, 1,5% em bombagem nas barragens e cerca de 2,4% foi exportada, principalmente para Marrocos. Provavelmente por ter sido um ano de elevada produção hidroeléctrica, em relação a 2009, Portugal importou menos electricidade de Espanha e o saldo ibérico com França até foi positivo. Quando escrevo positivo é para facilitar o entendimento. Apesar das exportações serem, normalmente, benéficas, no caso da electricidade ibérica exportar significa empobrecer. Como a Península Ibérica é uma região relativamente pequena no globo e existe uma correlação na intensidade dos ventos entre os dois países não é difícil concluir que parte da energia eléctrica que Espanha enviou para outros países foi energia eólica portuguesa que Espanha não conseguiu consumir.

O mix produtivo ibérico fica assim distribuído pelas diversas fontes: gás natural (25%); nuclear (21%); hidroeléctrica (20%); eólica (18%); carvão (10%) e outros (17%) entre os quais solar, biomassa e não renováveis em regime especial.

Primeira ilação que se tira. Apesar de sermos recordistas mundiais no consumo de energia eólica a base de consumo da região luso-espanhola é termoeléctrica e nuclear. Como demonstrarei neste blog, o futuro eléctrico planetário passará essencialmente pelo duo gás natural-nuclear. Por esta razão, e não por consumirmos tanta eólica, se pode dizer que a Península Ibérica até nem está assim tão mal no caminho da sustentabilidade económica e ambiental do seu sector eléctrico.

Vários valores interessantes se retiram dos resumos anuais dos dois países. Se admitirmos uma potência eólica média em 2010 de 19.155 MW em Espanha e 3.531 MW em Portugal o factor de capacidade do parque eólico ibérico no ano foi de 27,9%. Devido a este facto, apesar de haver mais do triplo de potência eólica instalada do que potência nuclear (7.448 MW), as centrais nucleares espanholas conseguiram gerar mais electricidade do que as turbinas dos dois países.

Se admitirmos que toda a exportação de energia eléctrica ibérica se deveu a excesso de produção eólica então 15,7% da produção eólica foi exportada. Com esta assunção, na Península Ibérica, a eólica valeu apenas 14,4% do consumo. Ainda assim, certamente, o valor mais elevado do mundo. Com esta assunção, uma pequena parte da factura eléctrica que os portugueses e espanhóis pagam serve para financiar a electricidade de Marrocos que é deficitário na produção eléctrica. Graças à produção em regime especial (PRE) a exportação de electricidade na Península Ibérica empobrece os dois países.

Na minha opinião, e o futuro provará se tenho ou não razão, dificilmente os 15% de peso eólico no consumo serão superados expressivamente. As metas de integração de 50% de renováveis propagandeadas pelo Greenpeace, Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) ou as associações americanas (AWEA) e europeia (EWEA) de energia eólica, entre outros, não passam de fantasias parcas em sustentação científica ou económica.

Apesar de os subsídios vitais para a manutenção do negócio da energia eólica estarem cada vez mais a ser postos em causa, quer em Portugal quer em Espanha, acredito que na Península Ibérica ainda se instale potência eólica por mais uns anos até se chegar, talvez, a um peso de 25% no mix produtivo (8% de aumento). Para tal será requerido um parque eólico de 31.500 MW de potência, ou seja, é preciso adicionar mais 9.000 MW de potência. O valor é uma enormidade e, naturalmente, o investimento terá de ser suportado por tarifas feed-in. Parte desta potência será, provavelmente, instalada no mar com custos entre duas e três vezes o custo em terra. Com o fim das tarifas reguladas em Portugal pode-se imaginar o preço da electricidade que estaremos a pagar num cenário destes.

Admitamos que o consumo eléctrico na península não vai aumentar nos próximos anos, uma simplificação que não é totalmente descabida dada a situação económica. Contudo isso significa mais cerca de 23.100 GWh/ano de energia eólica a chegar à rede. Se assumirmos que metade é imediatamente consumida sobram 12.000 GWh. Admitindo que os países periféricos têm capacidade de absorção as exportações iriam aumentar 150% (8.300 GWh em 2010). Se a opção for armazenar em barragens isso implica triplicar a capacidade de bombagem (4.900 GWh em 2010) num total de 16.900 GWh. Mantendo a proporção entre os países a Portugal caberia 2.700 GWh (16%). A opção de bombagem também significa que 3.000 GWh se perdem dada a eficiência de 75% do processo. O custo do equipamento e infraestruturas para a bombagem fica demonstrado no PNBEPH.

Um aumento de 8% na produção eólica significa, respectivamente nos cenários de exportação e bombagem que admiti, uma cobertura de 4% e 6,5% do consumo de energia eléctrica nos países ibéricos. Apesar dos elevadíssimos custos associados, qualquer que seja o cenário, o investimento não permitiria, em segurança, prescindir dos 10% de produção eléctrica com uso de carvão. Essa devia ser a primeira meta ambiental no sector eléctrico. Isso mostra, se dúvidas houver, que a integração de energia eólica não aumenta drasticamente a independência energética nem anula a necessidade de backups termoeléctricos.   

Por tudo isto acho que estamos a assistir à chegada do pico de integração de energia eólica na Península Ibérica e também no mundo. Aqui analiso a extrapolação do exemplo ibérico para a União Europeia.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Fukushima, o derradeiro teste à energia nuclear

George Monbiot
George Monbiot é um escritor, jornalista e colunista do jornal The Guardian. É também um conhecido ambientalista informado e sério e por isso, naturalmente, defensor da energia nuclear. Nesta reflexão, interessante e reveladora, como é seu hábito, este inglês afirma que a sua posição em relação ao nuclear mudou com o tsunami que atingiu Fukushima I ou Daiichi (dai é número em japonês e ichi significa um). Mas não mudou no sentido mais óbvio para a maioria das pessoas:

"You will not be surprised to hear that the events in Japan have changed my view of nuclear power. You will be surprised to hear how they have changed it. As a result of the disaster at Fukushima, I am no longer nuclear-neutral. I now support the technology."
E suporta esta afirmação explicando a razão de ter passado a acreditar mais na energia nuclear:
"A crappy old plant with inadequate safety features was hit by a monster earthquake and a vast tsunami. The electricity supply failed, knocking out the cooling system. The reactors began to explode and melt down. The disaster exposed a familiar legacy of poor design and corner-cutting. Yet, as far as we know, no one has yet received a lethal dose of radiation."
O texto foi escrito a 21 de Março. Hoje confirma-se que ninguém morreu vítima da radiação. Monbiot tem razão no raciocínio que faz. Neste post detalhei as consequências do acidente de Fukushima Daiichi a nível de emissão de radiação. Sob o manto espesso de sensacionalismo que rodeou a evolução da situação, a crueza dos números mostra que a grande parte da radioactividade ficou contida dentro do perímetro da central. Ao contrário do que se afirmou, as consequências não serão sentidas durante décadas. Neste outro post deixei a informação de que, 5 meses depois do desastre, a vida na província de Fukushima está lentamente a voltar à normalidade. Se formos absolutamente racionais temos de admirar a capacidade de resistência da central a um desastre natural de magnitude muito rara.

Falha tectónica Açores-Gibraltar
Em Portugal, onde a energia nuclear não goza de grande popularidade, os acontecimentos em Fukushima Daiichi foram comentados como sendo a confirmação da perigosidade intrínseca da energia nuclear. Esta percepção é desmentida pelos números. A pergunta mais comum que foi feita na altura era o que acontecia em Portugal se um tsunami de proporções idênticas atingisse uma central nuclear na nossa costa. A pergunta faz sentido até pela presença da falha tectónica Açores-Gibraltar que passa perto da nossa costa e é capaz de provocar um tsunami significativo. A resposta mais acertada seria nada. As evidências?
Localização de Fukushima I e II
O complexo de 6 reactores de Fukushima Daiichi remonta à década de 70 do século XX. É dos mais antigos do parque de centrais nucleares do Japão. Pertencem à segunda geração de reactores nucleares (Gen II) e a central nunca foi projectada para resistir a uma parede de água tão alta quanto aquela que atingiu parte da costa nordeste japonesa no passado dia 11 de Março. O terremoto cortou a alimentação eléctrica exterior imprescindível ao funcionamento do sistema de arrefecimento. Os reactores já tinham entrado em shutdown e por isso não havia electricidade gerada na central. O backup de geradores diesel entrou em funcionamento mas o tsunami inundou-os e estes pararam. Entraram em funcionamento as baterias de emergência com autonomia de 8 horas. Como não foi reposta outra fonte de energia eléctrica nesse tempo deixou de haver arrefecimento, o núcleo dos reactores e as piscinas de arrefecimento do combustível gasto começaram a aquecer, a água começou a vaporizar e para evitar uma sobrepressão foi deixado sair vapor radioactivo para o exterior de forma controlada. A evaporação da água e o aquecimento consequente acabaram por gerar reacções químicas com libertação de hidrogénio. Para aliviar a concentração deste e evitar uma brutal explosão ventilou-se para a atmosfera. O hidrogénio em contacto com o ar exterior provocou explosões da forma que quase todos assistimos na televisão. Os reactores não foram afectados nestas explosões. Resumidamente foi isto que se passou em Fukushima Daiichi. Uma explicação mais pormenorizada mas sem entrar em excessivos detalhes técnicos encontra-se aqui.

Menos provável é alguém ter visto imagens, ou sequer ter ouvido falar, de Fukushima II ou Daini (dai ni significa número dois). Esta central foi construída sensivelmente uma década depois de Fukushima I e cerca de 3 km para sul da primeira. É composta por quatro reactores do tipo Boiling Water Reactors (BWR) GenII. Embora fornecidos pelos japoneses da Toshiba e Hitachi ao invés dos General Electric acidentados em Fukushima I são muito semelhantes no seu princípio de funcionamento e segurança oferecida. A razão pela qual a maioria das pessoas nunca ouviu falar de Fukushima II é porque esta central passou relativamente incólume pelo terremoto e tsunami.

Vista aérea de Fukushima II
Mas se uma central fosse hoje construída em Portugal seria equipada com reactores da última geração (Gen III+) radicalmente diferentes dos de Fukushima I e II e amplamente mais seguros. Para se ter uma ideia de quanto, os reactores nipónicos foram projectados com um core damage frequency (CDF) de 10−7, isto é, um dano no núcleo todos os 10.000.000 anos de funcionamento. Um reactor Areva EPR é desenhado com um CDF de 6,1x10−7, ou seja seis vezes mais robusto. Mas não é tudo, um reactor Areva EPR tem quatro sistemas de arrefecimento independentes, ou seja, tripla redundância, algo que nem é usado na aviação. Obedece a filosofia passive safety o que o faz desligar e arrefecer automaticamente em caso de avaria, sem precisar de intervenção humana ou energia eléctrica.

Uma central nuclear em Portugal podia ser concebida para suportar um tsunami de 14 metros de altura como o que se registou no Japão e não os 6 metros de projecto das centrais na província de Fukushima. Uma central nuclear em Portugal ia beneficiar de todos os avanços e sistemas de segurança que forem introduzidos fruto da aprendizagem do acidente japonês. É isso que acontece em todas as indústrias e a nuclear não é excepção.

Por todas as razões que desenvolvi anteriormente creio poder-se afirmar sem demasiado optimismo que dificilmente uma central nuclear contruída em Portugal viria a sofrer, sob um tsunami de iguais proporções e no seu período de vida, os danos que sofreu Fukushima Daiichi. A falta de segurança não é uma razão válida para se recusar recorrer à energia nuclear. Ou socorrendo-me do último parágrafo do texto de Monbiot:
"Yes, I still loathe the liars who run the nuclear industry. Yes, I would prefer to see the entire sector shut down, if there were harmless alternatives. But there are no ideal solutions. Every energy technology carries a cost; so does the absence of energy technologies. Atomic energy has just been subjected to one of the harshest of possible tests, and the impact on people and the planet has been small. The crisis at Fukushima has converted me to the cause of nuclear power."