quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Futuro do nuclear a ser construído

Apesar do acontecimento em Fukushima ter criado um compasso de espera 2012 deverá recolocar os vários projectos de construção de novas centrais nucleares no mundo de novo em cima da mesa. Ainda para mais por terem começado a existir sinais de que a economia mundial está prestes a sair da crise que se abateu sobre ela em 2008. Contrariamente ao que se veicula penso que será mais a exploração de novas formas de gás natural e não Fukushima a poder boicotar este renascimento do nuclear que, para já, parece estar a afirmar-se.

HTGR Antares da Areva
O renascimento do nuclear terá que ser acompanhado necessariamente por inovação no desenho de reactores. A regulamentação será cada vez mais apertada o que levará a uma obsolescência mais rápida das actuais tecnologias. Também a inovação na utilização das outras fontes evoluirá pelo que o nuclear terá de se aperfeiçoar para não morrer. A inovação e competitividade no nuclear é tanto mais importante pela pouca popularidade que tem entre as comunidades. Ainda que acredito que ela tenderá a melhorar não me parece que alguma vez o nuclear vá gozar de wishful thinking fantasioso como aquele que alimenta hoje em dia as fontes renováveis intermitentes. A energia nuclear terá de se continuar a impor pelos números.

Creio que a inovação acontecerá naturalmente desde que haja mercado e aí é preciso facilitação política. Quando digo facilitação não me refiro a apoios mas apenas a planeamento e legislação que permita a construção de novas centrais nucleares. Sou optimista ao ponto de achar que se esse espaço para o nuclear for criado a visão de Bill Gates de uma concorrência feroz e altamente inovadora de soluções nucleares surgirá.

Na semana passada houve duas notícias que ajudam a alimentar a convicção de que o nuclear está longe de estar morto. Da Índia chegou a notícia de que o governo local planeia, no começo de 2013, preparar o funcionamento (commission - uma etapa fundamental para a entrada ao serviço de um reactor) do seu primeiro reactor nuclear de 4ª geração. Trata-se do primeiro de um conjunto de cinco reactores de neutrões rápidos ou Fast breeder reactors (FBR)com uma potência de 500MWe, muito superior ao experimental de 13MW existente no país ou ao de 20MW que a China ligou à rede no verão passado.

Os FBR têm a capacidade de consumir urânio 238 (o mais abundante) e por isso têm um consumo específico de urânio muito mais baixo do que a actual geração. Os FBR conseguem inclusivamente consumir resíduos produzidos nos reactores actuais. Este novo reactor constitui o começo da segunda fase do prgrama nuclear indiano, um dos mais ambiciosos do mundo. A primeira fase começou na década de 70 com a construção de reactores que usam água pesada para arrefecimento (Pressurized Heavy Water Reactor - PHWR) e que se ofram tornando cada vez mais potentes à medida que o país ia acumulando know-how. A Índia tem neste momento alguns PHWR em construção. Os FBR destinam-se precisamente a consumir os resíduos que os PHWR geraram ao longo das últimas décadas. A terceira fase terá lugar com o lançamento daquilo a que os indinao designam de advanced reactor que será capaz de consumir tório 232, um material quatro vezes mais disponível na Terra do que o urânio 238 e do qual a Índia detém as maiores reservas mundiais.

Nos EUA, país que recentemente aprovou a construção da sua primeira central nuclear em 30 anos,viu agora a Next Generation Nuclear Plant Industry Alliance (NGNP) seleccionar um design de reactor de 4ª geração arrefecido a gás. A NGNP é uma joint venture criada pelo governo central em 2005 que visou juntar esforços entre várias empresas ligadas ao sector energético para desenvolver e contruir até 2021 um reactor High-temperature Gas-cooled Reactor (HTGR) arrefecido a gás em alternativa à água comum nos reactores actuais. A escolha caiu no reactor Antares da francesa Areva. A utilização de um refrigerante alternativo permite aumentar a temperatura de funcionamento do reactor até perto dos 1000ºC. Para além da maior eficiência do reactor na produção de energia eléctrica as temperaturas elevadas que o gás pode atingir permitem-lhe gerar calor ou produzir hidrogénio em cogeração. Isso torna este tipo de reactor bastante apetecível para outras indústrias e não apenas as que exploram a produção eléctrica. A aliança NGNP é constituída por algumas petrolíferas e outras empresas que actuam no sector químico.

A industrialização de reactores de 4ª geração será um passo decisivo para o futuro da energia nuclear no mundo. A eficiciência destes reactores afasta definitivamente questões de duração de reservas de urânio. E por diminuirem grandemente a quantidade e perigosidade dos resíduos que criam colocam-se noutro patamar de segurança face aos reactores actuais.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Entrevista a ex-presidente da ERSE

Fica aqui uma entrevista longa mas interessante com o ex-presidente da ERSE Jorge Vasconcelos da qual eu destacaria os comentários sob a ausência de concorrência na produção eléctrica de Portugal e Espanha que impedirá que o mercado grossista ibérico se liberalize efectivamente nos próximos dez anos, a menos que alguns direitos adquiridos sejam revogados.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Europa dá vida ao nuclear

Manifestações de apoio e repúdio em Garona
Na semana passada tivemos dois sinais de que a energia nuclear poderá conhecer nova fase expansionista na Europa agora que muitos países revêem as suas metas de integração de fontes renováveis intermitentes.

Depois de ter dividido a opinião pública espanhola o encerramento da central nuclear de Garona decretado pelo anterior governo socialista para ter lugar em 2013 foi agora revisto pelo PP. O executivo de Rajoy decidiu prolongar por mais cinco anos (com a possibilidade de um sexto) o tempo da vida desta central que foi ligada à rede em 1971. Apesar da crise espanhola que, à semelhança do que está acontecer em Portugal, deverá levar o consumo eléctrico a diminuir no país vizinho o governo considera que não é oportuno nem estratégico prescindir da geração eléctrica em centrais nucleares.

Também na semana passada David Cameron e Nicolas Sarkozy, por ocasião da cimeira franco-inglesa, asinaram acordos bilaterais de cooperação no desenvolvimento de novas centrais nucleares no Reiuno Unido. As Ilhas britânicas querem tornar-se um dos países com maior peso de nuclear no seu mix electroprodutor e empresas com grande experiência no sector, caso da EDF e Areva, estão a participar activamente na renovação do parque electroprodutor britânico.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Debate televisivo prós e contras: ausência do nuclear

Esta semana irei comentar mais detalhadamente alguns aspectos debatidos no programa Prós e Contras da passada segunda-feira mas hoje vou referir-me ao aspecto da ausência do nuclear no debate que já vi abordado em mais do que um local, nomeadamente pelo Ecotretas que é contra a energia nuclear em Portugal por razões que discordo mas que compreendo.

Acho que os defensores do manifesto fizeram bem em não mencionar o tema nuclear. Em primeiro lugar por que nem todos apoiam a solução e em segundo lugar porque não existe ainda em Portugal maturidade e objectividade para debater este assunto pacificamente. Como o Ecotretas bem ressalvou o programa teve alturas de quase descontrolo e a discussão do nuclear poderia ter consequências ainda mais desastrosas. Basta referir que no final do programa quando Patrick Monteiro de Barros preferiu a palavra nuclear Carlos Pimenta quase entrou em colapso nervoso. E Carlos Pimenta tem formação de engenharia, é supostamente entendido no sector energético e portanto deveria ter uma visão mais pragmática sobre o tema. Não há condições para se debater nuclear numa praça tão pública e, ao contrário de uma sugestão no programa, sou totalmente contra um referendo em Portugal sobre este assunto. Na verdade, sou contra referendos de cariz técnico que exijam conhecimentos que a maioria dos portugueses não tem e por isso nunca poderia votar conscientemente. A energia nuclear deve ser discutida por quem sabe e em espaços próprios.

Sobre a introdução da energia nuclear em Portugal a questão não é se mas quando. Se há coisa sobre a qual tenho a certeza absoluta é que a energia nuclear fará um dia parte do mix produtivo de Portugal. Talvez não no meu tempo de vida mas fará. A central nuclear é como o automóvel, o telemóvel ou a caixa ATM ou a ainternet. O seu benefício é de tal forma gritante e óbvio que lutar contra ela exige argumentos falaciosos e apaixonados como aqueles que Carlos Pimenta esgrimiu no debate.

A aversão nacional à energia nuclear faz-me lembrar a luta dos comerciantes tradicionais contra os centros comerciais e os hipermercados. Uma luta que tinha aquela emblemática e aberrante distorção de as grandes superfícies estarem proibidas de abrir ao domingo. Supostamente era para defender o dia da família mas sempre me lembro de dizer que essa medida tinha os dias contados. Quem beneficiava com isso? Apenas os comerciantes tradicionais.

Permitir que a energia eléctrica de base do país venha de centrais nucleares é abrir as grandes superfícies ao domingo. Eu sei que vai acontecer um dia mas faço força para que seja quanto antes para bem de todos os portugueses.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A crise europeia, o aquecimento global e o ocaso do sector renovável

Os dois últimos artigos de opinião do site Energy Tribune merecem uma breve reflexão. Neste primeiro Peter Glover resume os anunciados cortes nos apoio às energias renováveis que estão a acontecer um pouco por toda a Europa motivados pela crise europeia encabeçada pela crise da dívida grega. Este cortes são circunstanciais, isto é, resultam de uma pressão económica e não da assunção pelos governos europeus da insustentabilidade do modelo eletroprodutor renovável. A questão natural que se coloca é, passada esta tormenta, os subsídios serão reestabelecidos?

Até há uma semana a minha opinião é de que não, jamais os países europeus subsidiarão tanto as energias renováveis como até aqui. Num post recente até considerei que no mundo desenvolvido (pelo menos de acordo com a designação do séc. XX) 2010 marcou o pico da instalação de potencia renovável. Mas, e volto a frisar, até há uma semana, estava convencido que mal a Europa começasse a recuperar os governos restituariam alguns dos subsídios. É essa a posição espanhola ou portuguesa que divulguei aqui. Em boa retórica política foi dito que os cortes são por tempo indeterminado e a interpretação que fiz foi: só quando houver dinheiro!

Mas na semana passada houve um acontecimento que poderá ter ditado a não restituição dos subsídios agora eliminados. O lançamento do livro "Die Kalte Sonne" pelo conhecido ambientalista alemão Fritz Vahrenholt que vem pôr em causa o aquecimento global antropogénico. Este acontecimento, já abordado pelo Ecotretas, tem o potencial de abalar a crença de uma das sociedades mais acérrimas na sua defesa. Os objectivos alemães e europeus na integração de fontes renováveis resultam em grande medida de se acreditar que o planeta está a aquecer.

Junte-se à falência da teoria do aquecimento global a revolução do shale gas e parece-me cada vez menos provável que as fontes renováveis de energia eléctrica voltem a ter a popularidade que gozaram até aqui. Desde a semana passada que acho que as decisões espenhol e portuguesa de parar futuros projectos renováveis serão permanentes.

Só espero é que não se passe de um extremo ao outro, isto é, temo que o carvão volte a ser aceite. Para dar três exemplos, temo que a Alemanha coloque o carvão (de que possui reservas) à frente do nuclear e do gás natural como fonte de energia primária. Temo que a Polónia abrande a sua aposta nuclear ou que a Dinamarca deixe de perspectivar uma inevitável reforma das suas centrais a carvão.

É que entre estes dois cenários, excesso de renováveis ou excesso de carvão não sei qual o pior. Mas creio que à semelhança do resto do mundo será o gás natural a fonte a mais crescer na produção eléctrica europeia. Quanto ao nuclear, como tenho escrito, a exploração de shale gas e o fim da teoria do aquecimento global não lhe augura um futuro risonho no médio prazo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O pragmatismo turco

Já tenho abordado a estratégia energética turca simplesmente porque é um dos concorrentes naturais do nosso país. Sabendo que a competitividade do custo da energia eléctrica é um factor de competitividade das empresas, também das exportadoras, é útil saber aquilo que andam a fazer os nossos competidores. Há umas semanas referi o projecto turco de construção de duas novas centrais nucleares em parceria com japoneses.

Agora o governo de Ankara juntou-se a sul coreanos para desenvolver duas novas centrais a carvão. O objectivo é reduzir a dependência do gás russo e iraniano. Antes de ser pró-nuclear sou anti-carvão mas consigo entender o ponto de vista, a ideia de independência energética é utópica mas a segurança energética deve ser uma preocupação primordial de um país, principalmente um situado numa região tão sensível.  Com as novas centrais nucleares e a carvão a Turquia pretende acompanhar a procura crescente por electricidade na economia turca e ao mesmo tempo reduzir de 50 para 30% o peso do gás no seu mix electroprodutor.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A obsessão com a criação de emprego nas renováveis

Os defensores portugueses das renováveis têm dois argumento obsessivos, a potência instalada e a criação de emprego. É compreensível, não têm outros números em que fiquem bem na fotografia. Sobre a irrelevância da potência instalada face à energia produzida já me referi várias vezes, este post debruça-se sobre a a propalada criação de emprego. A APREN, com toda a sua demagogia, previa, em 2008, que em 2015 as energias renováveis criariam 60.800 empregos. Um número perfeitamente ilusório que testemunha a eufórica complacência pró-renovável que se vivia em Portugal antes da recessão mundial começar a trazer alguma objectividade a alguns observadores do sector. Hoje, até a APREN terá de rever os seus números depois do anúncio em relação ao congelamento de novos projectos renováveis. Não vou fazer uma contabilidade dos empregos efectivamente gerados pelas fontes renováveis em Portugal até porque a discussão não precisa de chegar tão longe para se desmontar este argumento falacioso dos defensores das renováveis. E não precisa por três razões fundamentais:
  1. Contar empregos criados e não os dividir pela energia eléctrica produzida não nos diz nada sobre a importância desses empregos. O sector eléctrico não foge à necessidade de eficiência e a eficiência só se mede reduzindo cada emprego à energia eléctrica que ele coloca na rede.
  2. Embora aparentemente desconhecido em Portugal, nos outros países europeus que apostaram fortemente em energias renováveis olha-se para o sector de uma forma mais científica e estudos aí realizados revelam que as energias renováveis destroem mais empregos na economia real do que aqueles que criam. Em Portugal, onde ao contrário dos países citados nunca existiu uma indústria de equipamentos para parques eólicos e solares, o rácio entre empregos criados e destruídos, principalmente nos mais qualificados, é ainda pior. Isso não interessa aos empresários que têm beneficiado das subvenções às renováveis mas é central numa análise do contributo positivo que o sector trouxe à economia portuguesa e à geração de emprego.
  3. Mas acima de tudo a criação de emprego não é um vantagem quando se fala de sector electroprodutor. Um centro electroprodutor é tanto melhor quanto menos empregos gerar. 
Confesso sentir algum constrangimento em escrever sobre conceitos tão básicos de racionalidade empresarial mas quando se usa tantas vezes o argumento da criação de emprego parece que nem toda a gente tem esta noção. A energia eléctrica não é um produto acabado que apela à emoção como um carro ou roupa ou um serviço diferenciado como um hotel de luxo ou um spa. É nesse tipo de produtos ou serviços que se consegue fazer diferença, seja na qualidade intrínseca ou tangível dos mesmo seja em valores mais abstractos e emocionais.

A energia eléctrica é um serviço básico, é um meio e não um fim em si mesmo. Pela particularidade de a energia eléctrica não ser um bem transaccionável e provir da mesma rede de distribuição nem sequer é possível distinguir a sua origem. Os consumidores não têm hipótese de fazer opções de origem da energia que consomem. Eu não sei se a energia eléctrica que me permite estar neste momento a escrever este texto no computador veio de Sines, Espanha ou de um parque eólico qualquer. Se um restaurante tiver um empregado por cada mesa ao invés de 10 mesas o serviço é com certeza melhor. Mas se amanhã a central do Carregado contratar mais 50 trabalhadores isso não mudará nada na forma como a máquina de lavar roupa cá em casa trabalha. Pode soar mal mas o sector electroprodutor ideal é aquele que não emprega ninguém. Ou aquele que emprega tão pouca gente quanto seja possível sem comprometer a sua eficiência.

Outra coisa completamente diferente seria os defensores portugueses das renováveis vangloriarem-se da criação de empregos qualificados indirectos na pesquisa e desenvolvimento, não na produção de energia. Porém isso é coisa que não existe. Isso seria estruturante e revelaria saúde e pujança do sector. Mas como se sabe em Portugal nunca houve visão para tal e neste momento é tarde. É tarde porque 2010 deverá ter marcado o pico da aposta renovável no mundo ocidental. E é tarde porque os chineses estão a tomar conta da indústria de fabrico de turbinas eólica e painéis solares.