segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Espanha mais perto de relançamento nuclear

Mariano Rajoy
O abaixamento do preço grossista da electricidade sempre que há excesso de produção renovável não é um benefícios destas fontes mas uma desvantagem. Este argumento presente no estudo APREN/Roland Berger é tolo quando aplicado à produção renovável portuguesa mas não tanto se essa produção tiver lugar do outro lado da fronteira. Como o dia 6 de Novembro tão bem ilustra, o excesso de produção renovável espanhol é um prejuízo para os consumidores locais mas uma prenda para os consumidores portugueses. E claro, o inverso é verdade.

O preço da electricidade em Portugal já é o mais elevado da Europa para consumidores domésticos pesando o poder de compra como calculei aqui e o secretário de estado da Energia reconheceu recentemente. Se este preço é de alguma forma financiado pelo excesso de produção renovável espanhola é seguro que se a potência renovável instalada em Espanha for suprimida os consumidores portugueses irão sofrer as consequências.

Como venho defendendo neste blog há algum tempo não tenho dúvidas que Espanha irá trocar potência renovável por nuclear. Com um défice tarifário que ultrapassa os €20.000M parece-me uma dedução inevitável. Espanha precisa urgentemente de energia eléctrica barata e o nuclear será imbatível para o fazer sem o impacto ambiental das termoeléctricas.

A verdade é que em Espanha se têm dado passos extraordinários para que o país volte a apostar no nuclear. O anterior governo socialista em final de funções propôs novas tarifas para a eólica que, se aprovadas, serão a sua morte. Os lideres das eléctricas espanholas querem travar uma terceira vaga renovável agora sob a forma de termosolar concentrada. O maior avanço foi dado ontem com a maioria absoluta conquistada pelo Partido Popular (PP) nas eleições legislativas e a eleição de Mariano Rajoy como no Primeiro-Ministro de Espanha.

Embora durante a campanha Rajoy nunca se tenha comprometido com grandes objectivos, fosse para o sector eléctrico ou outro, é sabido que defensor de um mix energético que inclua centrais nucleares no parque electroprodutor. O programa do PP inclui para o sector eléctrico três medidas que dizem respeito ao nuclear (pág.33):
  1. Reverter a decisão de fechar a central nuclear de Santa Maria de Garona em 2013.
  2. Acordar a extensão até aos 60 anos no funcionamento das centrais nucleares espanholas em troca de uma taxa nuclear. Esta foi a proposta que Merkel fez aos operadores das centrais alemãs em 2010.
  3. Começar a estudar localizações para novas centrais.  
A primeira medida deverá avançar imediatamente e acredito que o acordo para a segunda acontecerá brevemente. A grande dúvida será até que profundidade será levada a terceira. Mesmo que o número de centrais em Espanha não aumente se os novos reactores instalados forem de 1.600MW de potência a capacidade nuclear espanhola aumentará. Mas, como calculei aqui, Espanha poderá ir até 16 reactores de 1.600MW para gerarem cerca de 70% do consumo doméstico. Actualmente Espanha tem 8 reactores com um total de 7.448MW de potência que geram 18% do seu consumo. 

Num cenário assim o diagrama de custos do MIBEL alterar-se-á para prejuízo de Portugal. O mais sensato seria o governo português começar a encetar conversações com o homólogo espanhol para que a aposta nuclear ibérica seja feita de forma concertada e integrada. Portugal só terá a ganhar com isso. Deixar-se ficar para trás será prolongar uma decisão mais ou menos inevitável. Arrastar demasiado esta decisão pode obrigar a construir mais centrais de ciclo combinado que inviabilizem o nuclear em Portugal até 2040. 

domingo, 20 de novembro de 2011

A paridade do fotovoltaico é expectável esta década?

Independentemente de, com a tecnologia disponível actualmente, a energia solar não ser capaz de ser economicamente competitiva devido à necessidade de ter backup térmico a armazenagem tenho algumas dúvidas que o possa vir a ser numa comparação directa kWh-kWh produzido como defendeu recentemente Paul Krugman.

A descida do custo de produção de paneis fotovoltaicos no último ano terá sido mais conduzida pela migração de muita produção para a China e pelo esmagamento da margens dos fabricantes. A diminuição do custo de produção unitário com o aumento da produção também tenderá para zero com a maturidade da tecnologia. 

O último artigo de opinião no Energy Tribune aborda precisamente este tema e dá uma visão que me parece realista e precisa de ter de ser tida em conta. Será interessante perceber se em 2020 a produção eléctrica a partir de fonte solar consegue sobreviver com os cada vez mais diminuídos subsídios que se antevê a que se soma:
(...)even if PV manufacturing costs continue to fall quickly for the next few years, it's less clear that the PV prices paid by project developers, businesses and consumers will follow suit, particularly if the current low margins lead to a global shakeout or consolidation among producers.   

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Alemanha quer limitar instalação de potência solar

De acordo com a Bloomberg o governo alemão na pessoa do ministro da Economia Philipp Roesler pretende que, na próxima revisão do Erneuerbare-Energien-Gesetz (EEG), agendada para Julho de 2012, a potência solar instalada anualmente seja limitada a 1 GW. Só em 2010 a Alemanha incrementou essa potência em 7,4GW. 

Um representante do partido "verde" alemão considera que esta restrição "would push the solar industry out of Germany”. A falência da indústria solar alemã está em marcha não só devido ao abrandamento da procura interna mas em grande parte pela concorrência chinesa.

Já este ano o governo alemão tinha feito uma adenda ao EEG no sentido de limitar a instalação anual a 3,5GW e reduzir no ano seguinte a subvenção solar caso esse valor fosse superado. Como nos primeiros 9 meses deste ano mais 5,2GW de painéis solares foram instalados em Janeiro de 2012 os incentivos terão um corte de 15%.

Este corte progressivo do incentivo ao solar no país do mundo que tem mais potência instalada visa controlar os elevados custos da sua produção. Contudo, e como abordarei brevemente noutro post, a Alemanha planeia construir parques solares na Grécia.

A recente adenda não trouxe apenas cortes, as tarifas FIT para a biomassa subiram 30%, geotérmica 50% e eólica offshore 15%.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

RenewableUK tem humor britânico

O comentário de um leitor neste post sobre o shale gas britânico levou-me a pesquisar sobre um relatório elaborado pela consultora KPMG. O relatório intitulado "Thinking about the Affordable" compara dois cenários de mix energético do Reino Unido em 2020, um com forte presença de fontes renováveis e outro com mais peso de nuclear e gás natural. Infelizmente não encontro o relatório pelo que não posso comentar sobre ele. Consegui arranjar um resumo com dois gráficos que ilustram, na visão da KMPG, a grande diferença entre os dois cenários. Na hipótese renovável o gasto em infraestruturas supera em £34B (biliões anglo-saxónicos) a via térmica/nuclear. No primeiro caso é de £108B e no segundo de £74B. O relatório tira três importantes conclusões:
  1. Economic modelling of different electricity generation scenarios, to calculate the cheapest way of meeting the UK’s 2020 emission reduction targets, has shown that achieving self-imposed renewable energy targets as well as EU carbon reduction targets could cost an additional £34 billion of upfront investment;
  2. Planning constraints and ‘not in my back yard’ public opinion of onshore wind is costing the UK more than £10 billion. Subject to any planning reform, this means  more expensive offshore wind developments are needed;
  3. A heavy weighting of renewable energy in the low carbon generation mix costs an additional £55 more per tonne of CO2 saved than the cheapest scenario.
Não encontrei o relatório da KPMG mas encontrei a resposta da associação inglesa de energia eólica, ondas e marés, RenewableUK. O comentário enferma das habituais lacunas da narrativa pró-renovável.

A RenewableUK prevê que sem renováveis "electricity bills will be pushed up by 52% because of the volatility of fossil fuel prices". Os preços do gás natural, à conta do shale, têm descido em certos mercados, caso do americano. Mesmo a nível global não é provável que o preço do gás natural suba muito nas próximas décadas. Se em solo inglês existirem reservas de gás de xisto como a Cuadrilla admitiu o sector eléctrico britânico dependerá muito menos da importação do que até agora.
O estudo da KPMG refere que com renováveis é preciso investir mais £34B o que só pode surpreender mesmo quem vive iludido com estas fontes. Como tenho repetido inúmeras vezes só renováveis + gás natural (para backup) + barragens ou baterias (para armazenar) pode ser comparado a nuclear + gás natural. Não é difícil perceber que numa solução com elevado peso de renováveis seja preciso investir mais em parque electroprodutor, para além da rede, mesmo que parte dele vá ficar parado boa parte do tempo.

Os argumentos da RenewableUK atingem níveis humorísticos como neste por exemplo:
In Germany, Denmark and Spain, three European countries with a high level of wind power deployment, the low operational cost of wind means that it is the first choice of power source used to meet demand, displacing more expensive options, and thereby actually reducing rather than increasing electricity prices.
Na Alemanha, Dinamarca, Espanha (ou Portugal) a energia eólica não é a "primeira escolha" para responder à procura. Nestes países com excesso de eólica a rede está legalmente obrigada a escoar preferencialmente energia renovável. Se não houvesse esta prioridade imposta nenhum destes países a ia adquirir de livre vontade.

E fica ainda melhor:

The report states that wind farms only generate electricity for about one-third of the time. This is factually incorrect. Wind turbines in fact generate electricity for 80-85% of the time. They generate the maximum possible amount at full speed for about one-third of the time. KPMG appear to have confused these two concepts, leading to a basic error which does not inspire confidence in the rest of their research.
Claro, as turbinas funcionam entre 80-85% do tempo e não os 33% ditos pela KPMG (a média mundial andará pelos 25% mas adiante). É perfeitamente irrelevante que durante períodos destes 80% do tempo os aerogeradores sirvam para pouco mais do que manter acesa a iluminação pública, para a RenewableUK as turbinas trabalham tantas horas quanto um reactor nuclear!

Será que a RenewableUK não entende que o factor de capacidade é uma forma expedita de comparar a produtividade entre fontes de electricidade? Será que a RenewableUK não percebe que dizer que a eólica produz durante 1/3 do tempo não é dizer literalmente que as turbinas trabalham ininterruptamente de Janeiro a final de Abril e depois param o resto do ano?

O irrealismo prossegue:
"Those countries who previously embraced wind energy have reaped the rewards in terms of job creation. In Germany 80,000 people are employed in the wind energy sector, in contrast in the UK which missed its opportunities with onshore wind in the 1990s. Our wind industry currently employs just 10,600. RenewableUK's report "Working for a Green Britain" shows how this will could be increased to almost 90,000 people by 2020, but only if the Government recommits to offshore wind and meeting the 2020 renewable energy targets"
Por "recommits" deve entender-se "subvencionar". Com apoios estatais e prioridade no acesso à rede a violar o mais básico princípio da concorrência todos os empregos se podem criar, mesmo o de vendedor de areia no deserto.

Fico em pânico a pensar que são organizações com esta capacidade de pensamento e argumentação que influenciam o futuro do sector eléctrico europeu! Ou será que é deliberado? Coloca-se a ética e a honestidade na gaveta para continuar a viver à custa de subsídios?

Reino Unido rico em shale gas?

Uma pequena companhia da área da energia, Cuadrilla Resources, diz ter descoberto no centro da Grã-Bretanha um depósito de shale gas que dá às Ilhas Britânicas reservas deste combustível fóssil equivalentes às da Venezuela. A ser verdade isso coloca o Reino Unido no top ten mundial dos países com maiores reservas de gás natural.

O problema é que para o explorar a Cuadrilla precisará de efectuar centenas de furos na região o que está a assustar as populações locais que temem a contaminação dos solos e lençóis de água como já aconteceu nos EUA. A Cuadrilla terá de aplicar a técnica de hydraulic fracturing ou fracking que tem sido motivo de enorme controvérsia nos EUA, como recentemente entre Paul Krugman e Robert Bryce. Fica aqui um video da Cuadrilla a explicar o método:
A empresa diz que os locais nada têm a temer, no entanto a mesma admitiu que a sua actividade poderá ter sido responsável por dois pequenos sismos na região, um de intensidade 2,3 e outro 1,5 (escala de Richter). Este artigo da revista Scientific American confirma que a injecção no subsolo de água e aditivos sob elevada pressão poderá provocar sismos de intensiade 1 ou 2 como os que se verificaram na zona de exploração da Cuadrilla. Mas recusa que possa provocar abalos de maiores proporções.

Como escrevi no post do Krugman não tenho ainda plena opinião formada sobre os riscos reais do hydraulic fracturing mas no video abaixo a opinião de Ronald Bailey é semelhante à da resposta de Robert Bryce a Paul Krugman. O fracking é uma técnica já usada nos EUA há mais de 60 anos. O fracking per si não tem nenhuma falha grave. Tem os riscos associados à perfuração, seja para explorar shale ou não. Os casos de contaminação de água registados nos EUA resultaram de erros na perfuração e não do fracking.

Regressando à Europa será interessante perceber até que ponto esta descoberta irá abalar o actual programa do Department of Energy and Climate Change (DECC) britânico que visa descarbonizar a produção eléctrica do Reino Unido apostando fortemente em fontes renováveis e nuclear.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Paul Krugman blinded by the sun

In his last column in the New York Times Paul Krugman writes about power generation and either shows his lack of knowledge or a complete biased opinion on the subject. He starts by criticizing hydraulic fracturing technology that allows the exploration of shale gas and in which the americans are probably world leaders. Robert Bryce, a renowned journalist and author about the energy business debunks Krugman's arguments and refers the wealth and jobs created through the exploration of shale gas plus the drop in gas prices. In my opinion even more importantly than the beneficts to the price stability, shale gas reorganizes the world gas reserves and that brings energy security to several countries, namely the USA and european coutries. And that is something Krugman can't ignore. The Energy Information Administration (EIA) expects that in 2035 46% of natural gas consumed in the USA will come from shale. Russian Federation and Iran alone own the best part of the conventional natural gas reserves and none can be considered the most friendly country.

Krugman thinks that hydraulic fracturing should internalize all costs associated and his right. Not only that but production of electricity with fossil fuels should pay for all the damages that it makes. If that happens nuclear power will be the cheapest way of power generation.

In the second part of the article Krugman presents solar power as the ultimate solution for power generation and explains that solar power costs follow Moore's Law. He refers this article in Scientific American magazine that says that solar power will achieve price parity with current electricity price in 2020c or early. In 2030 it will be half that price. The numbers seem very optimistic to me but they are irrelevant to Krugman's column. One cannot compare 1 kWh of solar power with 1 kWh produced in a gas powered power plant. It is like compare apples and oranges. Only solar + gas (as backup) + pumped-storage dam or batteries (for storage).

Let's imagine the (impossible) scenario of having solar power capacitiy to produce momentarily (not permanently due to intermittency) all USA power consumption. Even then USA would require exactly the same amount of gas powered power stations than in scenario of 100% gas covering the demand. Even if all this power plants could only, as a whole, be needed for one hour in a year they would have to be ready. In the solar scenario the biggest portion of income of the gas power plants would come from stand-by contracts instead of selling energy to the grid.

One doesn't need to be a Nobel prized economist to understand that solar power can only achieve price parity with natural gas when solar power can cost nothing and hydraulic pump-storage goes for free. When will it happen? Never!

If Krugman argues that fracturing should pay for its shortcomings he must also demand that solar (and wind for that matter) internalize the costs of backup and storage. That is exactly what is happening in Virginia.

Paul Krugman julga ter sido iluminado pelo sol

No Espectador Interessado li esta pequena polémica entre o Nobel da Economia Paul Krugman e o reconhecido jornalista na área da energia Robert Bryce.

Paul Krugman
Na sua última coluna de opinião no New York Times Krugman escreve sobre energia eléctrica e mostra o muito pouco que sabe sobre o assunto ou a forma tendenciosa como analisa a questão. Começa por deitar abaixo o hydraulic fracturing ou fracking que permite explorar o shale gas e onde os americanos estão na vanguarda mundial. Confesso não ter uma opinião formada sobre os riscos da técnica e preciso de estudar mais sobre o assunto. O bom senso diz-me que é perigoso mas o bom senso também me diria que as fontes renováveis de energia são baratas. Robert Bryce que é um conhecedor da matéria desmonta os argumentos de Krugman e menciona a riqueza, emprego e estabilidade de preço do gás natural que a exploração de shale nos EUA tem permitido. Este artigo no Energy Tribune menciona o caso inglês mas chega à mesa conclusão que Bryce, os riscos de exploração do shale gas são largamente compensados pelos empregos que gera e pela manutenção do preço baixo do gás natural. Na minha opinião ainda mais importante do que o preço é a segurança energética que o shale traz aos EUA e Europa, um facto primordial que Krugman não pode ignorar.

Krugman acrescenta que sobre a actividade do fracking deviam ser imputados todos os custos associados, opinião com a qual concordo inteiramente e que estendo ao funcionamento das centrais a gás.

Depois apresenta-nos a energia solar como o futuro do fornecimento de energia eléctrica alegando que o seu custo segue a Lei de Moore. E cita este artigo da Scientific American que prevê que o custo da energia solar consiga paridade com o preço actual do mercado americano em 2020, baixando para metade em 2030. Os números parecem-me extremamente optimistas mas são irrelevantes para o artigo de Krugman. Não se pode comparar o "valor" de 1 MWh solar com 1 MWh vindo da queima de gás. Enquanto Krugman e os pró-renováveis insistirem nesta narrativa estéril é impossível debater soluções energéticas.

Só energia solar + gás natural (para backup) + hidro ou baterias (para armazenagem) pode ser comparado a gás natural. Imaginemos um cenário (irreal na prática) de os EUA terem instalada potência solar capaz de cobrir instantaneamente, mas não permanentemente dada a intermitência da fonte, o consumo do país. Neste cenário o número de centrais a gás teria de ser o mesmo que num cenário 100% gás. A diferença é que no cenário solar + gás + armazenagem as centrais termoeléctricas receberiam mais dinheiro pela garantia de potência do que pela venda de electricidade.

Assim, não é preciso ser um economista nobelizado para entender que a solução solar só conseguirá paridade com a produção a gás quando a produção solar for de graça e a armazenagem em barragens ou baterias sair de borla. Quando é que isso vai acontecer? Nunca!

Se Krugman defende que o shale pague os custos das externalidades nocivas também tem de apresentar a factura das externalidades negativas da solução solar. E o mesmo devia fazer o governo de Portugal.