sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Postes de electricidade atractivos

O Royal Institute of British Architects lançou um concurso com patrocínio estatal para redesenhar o clássico poste de electricidade, uma forma que não tem sofrido grandes evoluções. Existem várias propostas sendo a minha favorita a da foto anexa que faz lembrar a vela de um veleiro e tem qualquer coisa de Santiago Calatrava no seu design.
Faz todo o sentido modernizar e tornar as linhas eléctricas visualmente mais atractivas. Se os objectivos de integração de energia renovável na Europa avançarem o Velho Continente será cravejado de mais postes eléctricos e quanto mais apelativos eles forem mais fácil será impor a sua presença às populações. Os alemães serão excelentes clientes dado que terão de transportar a energia eólica offshore do Mar do Norte e a solar fotovoltaica produzida na Grécia.

ERSE quer subir preço da electricidade

A ERSE pretende aumentar em 30% o preço da electricidade para os consumidores domésticos no próximo ano. A proposta não constitui surpresa e já anteriormente tinha referido que seria uma consequência natural das políticas seguidas nos últimos quinze anos em Portugal. E convém esclarecer que este aumento proposto exclui o aumento do IVA anunciado recentemente e que entra em vigor já em Outubro.

Com este cenário seria oportuno a comunicação social (dado que não é de esperar que a classe política o faça) fazer um esforço para explicar às pessoas, anestesiadas com propaganda renovável, as razões para esta inevitável escalada do preço da electricidade. Era útil debater-se seriamente a relevância das novas barragens, o custo que elas irão trazer nas próximas décadas e parar projectos se ainda for possível. Era útil delinear uma política energética de médio/longo prazo coerente, sustentável e supra ciclos eleitorais que não deixe de fora o nuclear. E, no imediato, reduzir a subsidiação PRE (sem discriminar nenhuma fonte) tal como imposto pela troika e já debatido no seio dos partidos.

EDIT: A ERSE desmentiu esta notícia avançada pelo Diário Económico. Contudo, é inevitável a subida do preço da electricidade em 2012 pelas razões que tenho exposto neste blog.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Modelo de negócio das turbinas reversíveis


Barragem do Alqueva

Se as novas barragens com capacidade de bombagem a construir em Portugal vão custar cerca de €5 mil milhões e não vão gerar electricidade apreciável a pergunta que se coloca naturalmente é, qual o seu modelo de negócio?

A viabilidade económica dos novos projectos está naturalmente na bombagem. As barragens vão turbinar a água da albufeira nas horas de pico e preço elevado e bombar a água de volta nas horas de vazio e preço mais reduzido. E o preço de revenda terá de ser necessariamente 1/3 superior ao da compra para compensar a perda de 1/4 no processo de bombagem. O modelo não parece ser difícil de concretizar.

A bombagem será feita, sobretudo, consumindo energia eólica e as turbinas têm o dom de produzir quando menos é preciso (Inverno e noites) e portanto a preço mais baixo. Os dias 6 e 8 de Janeiro deste ano são um bom exemplo. A maioria da exportação foi feita a preços inferiores a €10/MWh e a maior parte das importações custou acima de €40/MWh. Usando estes valores como referência pode-se dizer que a concessionária da barragem compra o MWh a €13,3 (10/0,75) e revende a €40.

Infelizmente, para os consumidores o custo não é proporcional. O MWh eólico comprado pela barragem para bombagem era pago, nos dias de hoje, a mais de €90 através de tarifas feed-in. No dia seguinte é colocado no mercado a €40. Quando chegasse ao consumidor o preço seria, no Inverno passado, de €120 (90-10+40).

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Japão vai ligar centrais nucleares desactivadas

Yoshidio Noda
Sem grande surpresa, até porque se aproxima o Inverno, o novo Primeiro-Ministro japonês Yoshihio Noda deu autorização para reactivar as centrais nucleares paradas desde 11 de Março assim que forem completados os testes que estão a ser levado a cabo. A ligação das centrais à rede teria de acontecer mais tarde ou mais cedo dada a preocupante escassez de energia eléctrica que o Japão vinha a sentir desde o tsunami e que tem prejudicado o normal funcionamento da economia. A primeira ligação de uma central nestas condições já tinha acontecido há um mês. A capacidade nuclear instalada cobre 30% das necessidades de consumo nipónico e seria impossível compensar esta falta no curto/médio prazo.

Noda acrescentou ainda que será criada uma nova agência nuclear japonesa sob a alçada do Ministério do ambiente e não do Ministério da Economia como acontece actualmente com a Nuclear and Industrial Safety Agency (NISA).

Noda afirmou ainda que a política energética de longo prazo será revista até meados de 2012 e é de esperar uma redução do peso do contributo nuclear. E não fechou a porta à continuidade da energia nuclear como era vontade do seu antecessor Naoto Kan. Esta prudência é compreensível dado que actualmente, e como o acidente de Fukushima tão presente, cerca de 70% dos japoneses se dizem contra a existência de centrais nucleares no país.

O futuro plano energético japonês irá influenciar as previsões da International Atomic Energy Agency (IAEA) para 2030 em termos de construção de novas centrais nucleares. No mesmo dia das declarações de Noda o Director geral da IAEA, Yukiya Amano, referiu:
(...) the number of operating nuclear reactors in the world to increase by about 90 by 2030, in our low projection, or by around 350, in our high projection, compared to the current total of 432 reactors. This represents continuous and significant growth in the use of nuclear power, but at a slower growth rate than in our previous projections.
Se a construção de novas centrais não ficar próxima da melhor previsão de 350 o peso da energia atómica no mix mundial irá diminuir pois prevê-se que o consumo de electricidade duplique entre 2000 e 2030. Na minha opinião o número de centrais nucleares existentes no futuro será fortemente influenciada pela rapidez com que os reactores de 4ª geração entrarem ao serviço. A expectativa neste momento é de que a tecnologia esteja pronta por volta de 2030. Acredito que o peso da energia nuclear na produção eléctrica só arranque definitivamente a partir daí para na segunda metade do presente século se tornar a mais importante fonte primária de electricidade. A primeira metade deste século será dominada pelo gás natural.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Europa não é só Alemanha

Apesar do mediatismo de Angela Merkel, existe Europa para além da Alemanha. Apesar do desnorte da Chanceler na tentativa de não perder mais eleições, seja na política económica europeia, seja na política energética alemã, o facto é que a energia nuclear na Europa não está assim tão defunta quanto possa parecer.

Beznau - Mais antiga central nuclear suiça
Suiça
A Suiça, a par da Itália e a Alemanha, disse não à energia nuclear no rescaldo de Fukushima. O plano dos helvéticos era não substituir nenhuma das actuais cinco centrais nucleares quando estas chegassem ao fim da sua vida o que significaria o desaparecimento do nuclear no país em 2034. Porém um Comité do Senado para a Energia veio refazer a decisão introduzindo a nuance de não construir mais centrais “of the current generation”. Na prática isso significa manter a aposta nuclear. As centrais suiças são de segunda geração (Gen II) e só é esperado o phase-out da mais antiga em 2019. No fim desta década já as centrais Gen III+ são a norma e as GEN IV estarão muito mais próximas da industrialização.

Reino Unido
David Cameron
No Reino Unido o debate não se centra no desmantelamento das centrais nucleares. Pelo contrário, as ilhas Britânicas planeiam uma renovação e expansão da sua potência nuclear. O que está na ordem do dia, acima de tudo, é a viabilidade de continuar a subsidiar as fontes renováveis de energia eléctrica. Dois assessores de David Cameron para o sector energético redigiram-lhe esta carta onde expõem reservas relativamente a um estudo do Department of Energy and Climate Change (DECC) que prevê um aumento de apenas 30% no preço da energia inglesa até 2020. Os assessores quiseram alertar o Primeiro-Ministro para o possível optimismo do valor tendo em conta, sobretudo, a expectativa de integrar 1/3 de energias renováveis no mix produtivo inglês em 2020. Neste artigo de opinião do The Telegraph faz-se uma antevisão do impacto financeiro da pretensão renovável no Reino Unido.

Naturalmente não é a pagar aos produtores de energia eólica escoceses para estes desligarem as turbinas da rede à noite para não sobrecarregar a rede que se vai conseguir manter o preço da electricidade baixo. Em Maio a factura para uma noite ficou em £900.000 (ou 20 vezes o custo da electricidade que teriam vendido). Tudo porque a rede eléctrica não está dimensionada para conseguir transportar tanta energia eólica intermitente do norte do Reino Unido onde é mais produzida para o sul onde é mais consumida. Valor que soma aos £1 mil milhões de subsídios que as energias renováveis receberam em terras de Sua Majestade durante 2010.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PS quer menos subsídios para a cogeração

Central de cogeração da Portucel
O 18º Congresso do PS em Braga foi morno em debate político mas dele saiu uma importante proposta socialista para o sector eléctrico, a redução da subsidiação à produção eléctrica em cogeração. O objectivo da medida, que será formalizada nos próximos dias, tem o objectivo de ser alternativa ao aumento do IVA sobre a electricidade. Não se trata do fim da subsidiação da produção eléctrica como o título da notícia sugere. E não se trata por duas razões. Primeira, a Produção em Regime Especial (PRE) não se limita a subsidiar apenas a produção eléctrica proveniente de centrais de cogeração. Segunda, a redução proposta pelo PS não pretende acabar totalmente com os subsídios.

Preço electricidade PRE vs geral (ERSE)
Nem deve. A produção eléctrica em centrais de cogeração visa aproveitar o potencial eléctrico do calor do vapor que é necessário gerar para outras actividades e que se não for aproveitado é energia que se perde. O aproveitamento eléctrico na cogeração é por isso uma medida de eficiência energética. A forma como a cogeração devia ter surgido em Portugal era através de financiamento para a construção de instalações e não na venda de electricidade, mas o processo nasceu torto. Contudo, a produção energética a partir da cogeração deve continuar a ser remunerada tendo em conta a viabilidade do processo para os produtores e a adequação do incentivo ao preço da electricidade no mercado. Acontece que o valor que os produtores de cogeração receberam em 2010 (€104/MWh) é mais do dobro do preço médio da electricidade em 2010 (€46/MWh) de acordo com os últimos dados da ERSE relativamente a produção PRE, o que demonstra o desfasamento insustentável e passível de ser revisto.

Subsídios PRE (ERSE)
 O PS pretende poupar pelo menos €130 milhões por ano com a redução do subsídio. Voltando a pegar nos dados da ERSE de Julho de 2011 a cogeração produziu, nos últimos 12 meses, 4.636 GWh. Isso significa que o PS antevê reduzir em €28/MWh a atribuição de subsídio. Ainda assim os produtores de electricidade em cogeração receberiam cerca de €85/MWh face aos €113 previstos pela ERSE para este ano.

Sobre este assunto António José Seguro, o actual Secretário-Geral do partido Socialista referiu:
Nos próximos dias entregaremos no Parlamento uma proposta que prevê um regime mais justo e fiscalizado dos subsídios à produção de eletricidade através de co-geração. Bastariam duas alterações para que os consumidores poupassem por ano, no mínimo, 130 milhões de euros. Deixariam de ser subsidiadas duas das maiores empresas portuguesas, mas ganhariam todos os consumidores. 
E quem são estas duas grandes empresas? É a Galp que necessita de vapor para refinar o crude nas suas refinarias e a Portucel que também recorre a vapor para a produção de papel. Para estas empresas a produção eléctrica não é core business pelo que o subsídio deve ser calculado para cobrir apenas os custos da instalação e manutenção das centrais de cogeração.


Produção PRE (ERSE)
É de louvar esta iniciativa do PS. Não concordo é que seja implementada como alternativa ao aumento do IVA sobre a electricidade. Deve ser tida como uma medida de racionalidade por si própria, não como forma de anular a subida do IVA. E é pena que fique por aqui e não contemple outras fontes de electricidade PRE subsidiadas excessivamente. Basta referir, por exemplo, que se a produção eólica dos últimos doze meses fosse remunerada pelo valor estipulado actualmente (€75/MWh) e não o valor previsto pela ERSE para 2011 (€95/MWh) a poupança seria ainda superior à da cogeração. Tendo em conta que nos últimos meses a produção eólica atingiu os 9.160 GWh, com uma redução de €20 no subsídio, conseguir-se-ia economizar €183 milhões.

Essa é, aliás, a pretensão do actual Ministro Álvaro Santos Pereira que, sem a visibilidade e o mediatismo de António Seguro tem, pelo menos segundo a imprensa, desenvolvido conversações com os produtores nesse sentido.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Nuvem negra sobre a indústria solar alemã

Futuramente "Death Valley"?
Nem só a indústria solar americana está a sofrer o violento impacto dos painéis fotovoltaicos made in China de baixo custo. Também a indústria alemã está a ser arrasada como conta este artigo do Der Spiegel. Apesar de a Alemanha estar longe de ter óbvias condições naturais para a exploração desta forma de produção eléctrica a indústria solar floresceu no país graças à atribuição de generosas tarifas feed-in desde há 11 anos. Só em 2010 contabilizaram um fardo de €81,5 mil milhões para os consumidores alemães. Foi graças a este enquadramento que, a partir de 1999, a cidade de Bitterfeld-Wolfen se desenvolveu e ganhou a alcunha de "Solar Valley". Com a concorrência chinesa as fábricas de painéis da região estão a fechar por incapacidade de competir no preço.

Mais do que dever-se a inovações tecnológicas de relevo como defendem os adeptos desta forma de energia, a descida de 50% verificada no preço dos painéis solares nos últimos três anos explica-se essencialmente pela transferência do fabrico nos EUA e Alemanha para a China e Taiwan. Sem indústria será bem mais complicado os respectivos governos justificarem os chorudos subsídios de que esta caríssima forma de energia goza.

Prevejo a continuidade da descida do preço nos próximos anos à medida
que os países ocidentais retirarem as tarifas feed-in o que levará ao definhar da energia solar incapaz de competir em mercado aberto. A energia solar, nos moldes actuais, simplesmente deixa de ser atractiva na Europa e EUA e é uma questão de tempo até os consumidores deixarem de tolerar esta migração encapotada de impostos para Oriente.

É provável que o Ministro das Finanças alemão venha a rever as suas ideias para a recuperação económica grega dada a morte anunciada da indústria solar alemã.

Mais sorte tem a indústria eólica. Não que tenha mais competitividade nos custos mas simplesmente porque colocar turbinas em contentores é uma tarefa mais complicada do que exportar painéis solares. Contudo, em 2010:
German wind turbine manufacturers as a whole saw revenues and jobs decline for the first time(...)Five years ago, there were four German names among the world's 10 largest wind turbine producers. Today there are only two, Siemens and Enercon, while four Chinese turbine makers are now among the top 10.