sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pequeno conto de ano novo

Há muitos, muitos anos de entre todas as espécies animais que povoam o planeta Terra uma começou a sobressair pela sua capacidade de inventar utensílios e desenvolver relações sociais complexas. Essa espécie foi designada de Homo Sapiens (HS) e no seu começo era uma espécie que migrava para fugir do clima adverso e perseguir alimentação. No entanto a sua superior capacidade intelectual permitiu-lhe domesticar animais, desenvolver a agricultura e desenvolver formas de mitigar os desafios do clima. Essas características únicas fizeram com que o HS se tornasse aos poucos numa espécie sedentária.

Com o desenvolvimento tecnológico o HS colonizou todos os continentes da Terra. Alguns exemplares mais afoitos desta espécie peculiar sedentarizaram-se em zonas do planeta que desafiavam a capacidade de sobrevivência de uma espécie terrestre como é o HS. Zonas de terrenos muito instáveis como são um Delta de um rio ou um Atol no oceano.
Os deltas dos rios são criados pela deposição de sedimentos trazidos pelos próprios rios e caracterizam-se por serem zonas pantanosas com grande variabilidade de altura e e sujeitas a inundações frequentes. Um Atol é uma formação de corais em redor de um vulcão que ao crescer cria ilhas normalmente de forma circular ou oval.  Ao crescer o Atol (que não é rochoso) acaba por colapsar sobre o seu próprio peso e afundar-se no oceano.

O engenho do HS deu-lhe a capacidade de resistir cada vez melhor aos fenómenos naturais e o que antigamente provocava morte e destruição com o decorrer dos séculos deixou quase de afectar o dia-a-dia do HS. Uma consequência desse desenvolvimento foi o aumento exponencial do números de exemplares de HS no planeta. As pequenas comunidades nos deltas do rio Mississipi e Mekong ou nos Atoís de Tuvalu e Maldivas tornaram-se em cidades. Os mesmo rigores do clima que antigamente vitimavam dezenas nestas regiões hoje desalojam milhares que são vistos em todo o globo através de invenções do HS como a televisão ou a internet.

Não só a capacidade inventiva caracteriza o HS. A memória curta e o fascínio por histórias apocalípticas de fim do mundo também. No final do Séc. XX o número de HS na Terra se aproximou dos sete mil milhões. Alguns destes criaram a fantasia de que esta espécie estava a criar aquecimento global no planeta, a aumentar da frequência e severidade de fenómenos metereológicos e a elevar perigosamente o nível médio das águas do mar. Estes HS sonham mudar o planeta para que ninguém tenha que de mudar de casa. 
Estes HS esqueceram-se que os seus antepassados jamais deveriam ter construído as suas casas em regiões naturalmente inóspitas para a sua espécie. A tecnologia do HS ainda não conseguiu tornar esta espécie anfíbia.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A paridade de custo das renováveis é um mito

Um dos mitos enraizados sobre as fontes renováveis intermitentes é que um dia, com a subida do preço dos combustíveis fósseis, serão competitivas no custo de produção e as subvenções actuais não serão necessárias.  A ideia é totalmente descabida mas perpetuada de tal forma pelo movimento "verde" neo-socialista que pessoas como Paul Krugman cometem o erro de não fazer contas.

No post linkado já tinha escrito que é preciso que a energia eólica e solar se obtenha de borla para que seja competitiva. E a probabilidade de isso acontecer um dia é pouco maior do que nula.
As fontes renováveis intermitentes não têm uma característica fundamental para uma fonte de energia eléctrica poder ser um pilar para a produção energética de um país, previsibilidade. As fontes clássicas estão  para a produção eléctrica como a rega está para um pomar, as fontes renováveis são como a chuva. Pode haver ou não haver chuva mas um pomar não prescindem de um sistema de rega para depender da imprevisibilidade da chuva. A chuva influência a escolha de ligar a rega, não a instalação. Da mesma forma todos os países que apostaram em eólica e solar mantiveram o parque electroprodutor clássico que já tinham. Em nenhum país do mundo as fontes renováveis fecharam uma barragem ou uma central termoeléctrica ou nuclear. Em Portugal, que é provavelmente o país do mundo com maior integração de renováveis intermitentes no consumo, nenhuma central termoeléctrica fechou por causa disso.

Os parques renováveis intermitentes não substituem as fontes clássicas, adicionam potência instalada, que pode ou não produzir energia eléctrica. Em relação ao custos é exactamente a mesma coisa, existe soma de custos. O resultado só é igual se uma das parcelas (o custo das intermitentes) for zero.

Alguém dirá oportunamente que quando, ou se, existir uma uma rede transeuropeia de alta-tensão haverá sempre alguma produção renovável que permitirá prescindir de uma pequena parte da potência nuclear/termo/hidroeléctrica instalada. Recuperando a analogia do pomar, se este for suficientemente extenso, pela lei das probabilidades, alguma parte dele terá água da chuva e produzirá fruta.

Vamos ultrapassar questões como a resistência das populações ao impacte paisagístico desta rede a ou distribuição de custos entre os diversos países da União Europeia. A sua necessidade advém, acima de tudo, da integração de renováveis e a elas deve ser imputado o custo.

Talvez mais importante é que a presença de renováveis intermitentes as centrais termoeléctricas deixam de trabalhar em cruzeiro para passarem a fazer ciclos de arranque/paragem. E fazendo nova analogia, um automóvel a andar a uma velocidade estabilizada em estrada gasta sempre menos do que no pára-arranque das cidades. isto é, a integração de renováveis intermitentes aumenta o custo de exploração das centrais termoeléctricas.
Voltamos ao início. Incorporemos o custo da rede eléctrica para ir buscar a electricidade às fontes renováveis intermitentes dispersas e longe dos centros consumidores. Mais a perda de eficiência das centrais termoeléctricas. Mesmo admitindo o hipotético desmantelamento de alguma potência convencional o custo de produção renovável terá de ser nulo para valer a pena economicamente. E num cenário em que as renováveis não valham mais de 10% do consumo.

Caso o plano seja mais ambicioso entra novo custo, armazenar produção renovável excedentária. Quando se pretende ultrapassa 10% de consumo a partir de fontes intermitentes como acontece em Portugal ou na Dinamarca há necessidade de consumir produção excedentária em barragens, outro custo que precisa de ser contabilizado.

Em resumo, a única forma de as fontes renováveis intermitentes poderem sobreviver em concorrência é se o seu custo de produção for nulo e sem ultrapassarem cerca de 10% do consumo. Acima desse valor toda a adição de renováveis intermitentes é uma menos-valia que encarece o preço final de electricidade.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Japão vai construir novas centrais nucleares

O anterior governo japonês revogou, em Setembro último, a decisão de abandonar a produção de energia eléctrica em centrais nucleares. No passado domingo o recém-eleito Primeiro-Ministro Shinzo Abe disse na sua primeira entrevista na televisão que o país irá construir novas centrais. A notícia não é boa apenas para os japoneses. A construção de novas centrais deverá levar a que o país invista mais em I&D na área.

Não deixa de ser surpreendente que a histeria anti-nuclear japonesa não tenha durado 24 meses. É irónico que durante este Inverno a abertura das vias marítimas do Ártico para o transporte de gás natural russo para o Japão tivesse sido assegurado por quebra-gelos nucleares.

O "altamente provável" arrefecimento global

Há duas semanas afirmei que a partilha na internet duma versão preliminar do quinto assessment report (AR5) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) por parte de um dos seus revisores era um embaraço para esta organização. E seria um embaraço porque um dos gráficos constantes do documento não consegue disfarçar aquilo que é mais do que sabido, que a temperatura média do planeta estabilizou no séc. XXI e neste momento já se encontra fora de qualquer previsão dos modelos computacionais do IPCC. Mas eu já devia saber que uma organização que há mais de 20 anos perpetra a maior falsidade da história moderna não se ia embaraçar facilmente.

Aproveitando um discurso recente e famoso do nosso Primeiro-Ministro eu diria que o ligeiro arrefecimento verificado no séc. XXI, longe de ser uma ameaça para a credibilidade do IPCC, é uma oportunidade para tornar a retórica do efeito do Homem sobre o clima a toda a prova. Primeiro vamos a factos: 
1. O dióxido de carbono é um gás de efeito de estufa, o seu aumento na atmosfera tem a capacidade de fazer aumentar a temperatura. É um gás que, usando um jargão científico, tem um feedback positivo com a temperatura. 
2. Os aerossóis (pequenas partículas sólidas ou líquidas suspensas num gás)  quando presentes na atmosfera têm o efeito de baixar a temperatura porque, essencialmente, servem de escudo à penetração de raios solares. Os aerossóis têm um feedback negativo sobre a temperatura. As nuvens são aerossóis naturais e o fumo da poluição um aerossol antropogénico.
O IPCC afirma que das 7 Gt de CO2 antropogénicas emitidas anualmente metade vai engrossar as 780 Gt que a atmosfera terreste contém o que significa que o nosso contributo anual se cifra em 0,45%. Estudos realizados e cujos papers podem ser consultados aqui defendem que o tempo de vida do CO2 na atmosfera varia de 5 a 10 anos o que significa que, do efeito de estufa total da atmosfera, a responsabilidade humana é de 5%. Essa percentagem traduzida em temperatura corresponde a um aumento de 0,1ºC.

Não tenho números tão detalhados mas a emissão antropogénica de aerossóis     também é diminuta face à natural. Basta referir que a erupção de um vulcão com a consequente emissão de enormes quantidades de poeiras tem efeitos mensuráveis na temperatura global terrestre de uma forma que o Homem não consegue replicar. A erupção do Pinatubo em 1992 provocou um arrefecimento global em 1993 e 1994. A poluição antropogénica é capaz de alterar o clima localmente, como acontece nas cidades, mas nunca a uma escala global.

Os efeitos da actividade humana são de uma ou duas ordens de grandeza inferiores às das forças naturais. O IPCC defende que o pequeno contributo humano é suficiente para desequilibrar o sistema climático. Os cépticos afirmam que o sistema, os seus inputs e outputs ainda não são totalmente compreendidos. E que até hoje não existem evidências mensuráveis de que o Homem tenha produzido alterações no clima à escala planetária.
É o efeito dos aerossóis antropogénicos que o IPCC dá como justificação para o arrefecimento da última década. O blog NoTricksZone faz um apanhado muito oportuno da história. O aquecimento global é real e está em linha com o previsto nos modelos. Só que as actividades humanas emitem aerossóis para além de CO2 e o efeito negativo de uns anulam o efeito positivo de outros. Reparemos na página 10 do resumo para o políticos:
It is extremely likely that human activities have caused more than half of the observed increase in global average surface temperature since the 1950s. (...) The greenhouse gas contribution to the warming from 1951–2010 is in the range between 0.6 and 1.4°C. This is very likely greater than the total observed warming of approximately 0.6°C over the same period.
É preciso ressalvar que os relatórios do IPCC não tiram conclusões, fazem sugestões. Atente nas expressões extremely likely e very likely que reproduzo em itálico tal como aparece no AR5.

Ora, se as temperaturas reais não caem dentro do altamente provável intervalo de aquecimento antropogénico é porque alguma coisa o está a anular. Será arrefecimento antropogénico? Na página 15 do Capítulo 10 é dada a sugestão:
Over the 1951–2010 period, greenhouse-gas-attributable warming at 0.6–1.4 K is significantly larger than the observed warming of approximately 0.6 K, and is compensated by an aerosol-induced cooling of between 0 and –0.8 K
Como está escrito no começo do subcapítulo estas sugestões do IPCC para influência antropogénica no clima são resultado de computação em modelos climáticos e não em resultado de validação robusta de hipóteses científicas:
Since AR4, detection and attribution studies applied to a new generation of models that samples a wider range of forcing, modelling and observational uncertainty than assessed in AR4, support previous studies that concluded that greenhouse gases are the largest contributor to global mean temperature increases since the mid 20th century.
Resumindo, não interessa se a atmosfera aquece ou arrefece, a culpa é do Homem. Não interessa se o clima faz aquilo que sempre fez, variar, a culpa é toda da nossa arrogante e destruidora procura de progresso e bem-estar!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ventos contrários para a utopia renovável alemã

Há uns dias escrevi que o wishful thinking alemão anti-nuclear e pró-renovável vai durar mais tempo do que o japonês graças às ligações de alta-tensão internacionais que a Alemanha tem com os seus vizinhos e que permitem amortecer a intermitência das suas fontes renováveis. Não obstante, os alemães cospem na mão que lhes dá de comer, isto é, atacam a forma como a Polónia ou a República Checa produzem energia eléctrica. Isto apesar de dependerem destes dois países para lhes fornecer energia eléctrica quando a produção renovável é insuficiente na Alemanha. E também dependem das suas redes quando o existe produção renovável excessiva.


Infelizmente o vento não sopra onde se quer e no caso alemão ele é mais forte no Mar do norte onde se estão a construir caríssimos parques offshore. Porém o grande consumo alemão situa-se no sul do país nas cidades industriais como Munique ou Estugarda. E a rede eléctrica alemã está no limiar da sua capacidade e não dispõe de linhas de alta-tensão em quantidade suficiente a atravessar o país de norte a sul. E não disporá tão cedo, não só porque obrigará a um investimento muito avultado, mas também porque os mesmos grupos "verdes" alemães que querem trocar nuclear por renováveis boicotam a edificação de postes de alta-tensão na paisagem alemã. A prazo isso poderá significar que em momentos de produção máxima dos parques offshore esta venha a ser superior à capacidade de escoamento da rede, um problema que já acontece na China e na Escócia.

Este desperdício poderá acontecer mais cedo do que o previsto. Até agora a Alemanha exportava para os países vizinhos o excesso de eólica mas o jornal alemão Die Welt publicou um artigo (que o blog NoTricksZone traduziu) que dá conta que a Polónia e a República Checa pretendem instalar meios de bloquear a entrada nas suas redes dos picos de produção renovável alemã. A Agência alemã para a energia (dena) comentou assim a decisão dos vizinhos do leste:
The use of phase shifters will have the consequence that windparks in Eastern Germany will have to be shut down more often in the future because the power will have no way of being delivered to the markets.
Há semelhança daquilo que acontece na Escócia os produtores eólicos alemães não sofrerão com este problema já que recebem sempre por aquilo que produzem, mesmo que essa energia não seja distribuída na rede.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Consenso, que consenso?

Os defensores do aquecimento global ou das alterações climáticas antropogénicas gostam de evidenciar que existe consenso entre a comunidade científica sobre a responsabilidade que o Homem está a ter sobre o clima do planeta. A ciência não tem nada que ver com consensos de opinião mas com robustez de dados e estudos científicos. E até hoje nenhum estudo científico mostrou que a actividade humana tenha tido ou venha a ter um impacte mensurável sobre o clima.


Não obstante a sua irrelevância, o suposto consenso não existe, como não existe nada daquilo que os evangelistas do aquecimento global gostam de sugerir. Pelo contrário, aquilo que se assistiu desde 2009 quando rebentou o escândalo Climategate, foi uma abertura cada vez maior dos media a dar voz aos inúmeros cientistas que refutam o alarmismo do aquecimento global. O The Wall Street Journal é um dos orgãos de informação que permite a exposição dos argumentos céticos. Um exemplo é este artigo de opinião assinado por 16 nomes ligados a áreas científicas e do qual destaco este paragrafo:
Alarmism over climate is of great benefit to many, providing government funding for academic research and a reason for government bureaucracies to grow. Alarmism also offers an excuse for governments to raise taxes, taxpayer-funded subsidies for businesses that understand how to work the political system, and a lure for big donations to charitable foundations promising to save the planet.
Mesmo entre  a opinião pública o consenso não existe e cerca de metade dos americanos, ingleses e canadianos não tem certezas de que o aquecimento global seja uma realidade e de que o Homem seja responsável por ela.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O bom senso regressa ao Japão

Nenhum país industrializado pode viver sem geração eléctrica a partir de fonte nuclear. Pelo menos sem grandes custos ambientais ou económicos. De entre estes o Japão é um dos casos mais críticos de "dependência" nuclear. O país do sol nascente não tem reservas de combustíveis fósseis, não tem reservas hídricas nem vizinhos com os quais equilibrar produção eléctrica intermitente como escrevi aqui. Basicamente o fecho de centrais nucleares no Japão obrigaria o país a ficar dependente do gás natural russo. Parece-me que na prática isso significa que o Japão seria um dos últimos países do mundo a abandonar a energia nuclear.


Como quase tudo aquilo que é incontornável, acontece mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos custos, mais ou menos dor. Nesta medida não se estranha este artigo do New York Times que dá conta que o Japão abandonou a ideia de abandonar o nuclear até 2040.

Na Alemanha a virtude do nuclear vai demorar mais tempo a revelar-se. Por duas razões. Primeiro, a visão ecofascista, neo-socialista, utópica é mais forte por lá. Segundo, os alemães podem sempre comprar energia nuclear aos seus vizinhos franceses, checos ou austríacos. Veremos como ficam as coisas depois das eleições de 2013.